Leandro Karnal: “a universidade ainda não foi superada”

Em entrevista à Ensino, Karnal reflete sobre formação de professores, os novos modelos de ensino e as crises da sociedade

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Professor da Unicamp desde 1996, Leandro Karnal se consolidou como um dos mais influentes formadores de opinião do país graças a uma singular combinação. Não bastassem os profundos conhecimentos em diversas áreas, o historiador tem uma grande capacidade de análise, condição que lhe permite descortinar as raízes de muitos fenômenos. A clareza na comunicação, a ironia e o humor são outras de suas características marcantes.

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Não por menos, Karnal se tornou um dos autores literários mais vendidos do Brasil e uma figura constante nos meios de comunicação. Desde 2016, ele assina uma coluna fixa no jornal O Estado de S. Paulo e, com frequência, participa de programas como Jornal da Cultura e Café Filosófico CPFL. O autor de Todos contra todos (Leya), um de seus mais populares títulos, será um dos principais palestrantes do 21º Fnesp, que o Semesp realiza nos dias 26 e 27 de setembro, em São Paulo.

Nesta entrevista, Karnal se detém principalmente sobre as questões educacionais. Ele concorda que é preciso reestruturar a concepção da escola em função da nova geração de alunos, mas reconhece que, como muitos professores, ele não sabe como reagir diante deste desafio. O intelectual também comenta o cenário de ódio e intolerância que se instalou no Brasil nos últimos tempos e afirma que nada disso é novidade. A diferença hoje é que “as violências estão se fazendo sentir também em espaços que antes se achavam preservados dela”. 

Em  alguns países desenvolvidos, as pessoas estão questionando a validade da formação universitária clássica, tida como incapaz de acompanhar as aceleradas transformações sociais. Os defensores dessa ideia alegam que, em vez de fazer uma faculdade, as pessoas deveriam, por exemplo, fazer cursos de menor duração para desenvolver competências específicas. Como o senhor enxerga esse modelo de formação?

Sim, a formação precisa de agilidade, atualização e os novos paradigmas de conhecimento nem sempre podem ser contidos no esquema fixo de uma grade curricular. Minha posição é que a formação básica e ampla seja universitária e, em um segundo momento, os profissionais sejam sempre estimulados à atualização com novos enfoques e experiências de cursos. Para dar mais clareza ao meu ponto: você vai sofrer uma cirurgia cardíaca. O profissional encarregado entra na sala e diz: “não cursei Medicina por ser muito estática e formal, mas fiz muitos vídeos de atualização e nanodegrees”.  Com sinceridade: você fica mais feliz e conclui que este é um bom modelo para cortar seu peito? Ainda precisamos de uma sólida estrutura formadora inicial e a universidade ainda não foi superada.

Leandro Karnal
“O momento é para quem apresentar resiliência em grau ninja” , Leandro Karnal

Nesse contexto de questionamento do diploma universitário, estão surgindo escolas sem professores, especialmente na área de tecnologia. Os alunos aprendem de forma autônoma por meio de uma plataforma virtual e com a ajuda de colegas. Há, no máximo, tutores. O senhor imagina isso se difundindo para outras áreas?

Sempre existem elaboradores do conhecimento, os que preparam o material, os que avaliam sua aplicação e medem sua eficácia. O professor presencial permanente pode e deve ser suplementado por vídeos, monitores, módulos instrucionais etc. O foco do ensino/aprendizagem é o conhecimento transformando alguém. Isso pode ser feito de muitas formas. A discussão é pensar se escrevemos melhor com caneta esferográfica ou digitando. Podemos pensar com muitos suportes de escrita. Ninguém jamais escreverá algo se não tiver lido bons textos antes. Diluir centralização não é eliminar professor.

O fraco desempenho educacional dos alunos brasileiros é atribuído a uma série de fatores, entre os quais a má formação dos professores. Além do fato de muitos docentes não terem formação na disciplina que lecionam, os cursos não preparam os alunos para os desafios concretos da sala de aula, como argumentam os críticos. Como formador de professores há tantos anos, como o senhor enxerga esses questionamentos?

O magistério é uma carreira pouco atrativa. As licenciaturas seduzem pouco. O primeiro ponto é que é uma carreira mal paga, estressante e de baixo prestígio social. Aqui começa o desafio. O segundo ponto diz respeito ao domínio técnico da área.  Este é um problema importante, todavia não tão grave como o primeiro. Pode ser resolvido a médio prazo. A última questão é decidir como reestruturar a concepção da escola para um mundo novo, líquido, com jovens que não podem mais ser inseridos em uma estrutura antiga de transmissão de conhecimento. O drama? Nós professores, eu inclusive, não sabemos como reagir diante do desafio atual.

Em um momento de escassez de recursos, muitos acreditam que o governo deveria priorizar carreiras como a de veterinário, engenheiro e médico, em vez de investir na formação de filósofos ou antropólogos. Que avaliação o senhor faz dessa posição?

Uma visão muito pobre de ciência, de humanidade e de utilidade. Em um mundo no qual a técnica material seja o único objeto, ocorre a negação da humanidade. Trata-se de um Admirável mundo novo, como na obra de Aldous Huxley. É uma tentativa de eficácia para os humanos transformados em colmeia ou formigueiro, onde cada função prática está determinada.  Abelhas e formigas não produzem filosofia, só trabalham e morrem dentro do seu universo previsto e determinado e eficaz.

Quando vejo algum político defendo que devemos enfatizar muito veterinária, penso que pode ser em causa própria. Peguemos este exemplo: o cuidado com animais, a recusa de sofrimento desnecessário, o avanço de paradigmas de tratamento e de concepções sobre vida dependem, em boa parte, de uma questão filosófica.  Ser um país desenvolvido, pertencer ao Primeiro Mundo, crescer no PIB, resolver grandes problemas: tudo depende de boa educação para médicos, veterinários, filósofos, antropólogos e, talvez, até para políticos.

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Há um movimento na Europa pedindo a ‘descolonização’ dos currículos – e as instituições de ensino superior estão buscando atendê-lo. University of Cambridge, University College London e University of Birmingham são algumas das que estão revendo a bibliografia dos cursos, hoje dominada por autores masculinos, brancos e ocidentais, como apontam os críticos. Esta é uma demanda justa? Se esse movimento crescer, podemos esperar releituras de acontecimentos históricos?

É saudável a preocupação com o silenciamento de tantos seres humanos. Somos muito focados em homens brancos de ascendência europeia e posso, perfeitamente, analisar muitas e brilhantes mulheres negras, por exemplo. O princípio é bom e está muito além do politicamente correto, porque oferecerá espelhos e identidades para jovens meninas negras em formação. Porém… se eu torno o princípio algo independente da qualidade em si, ele vira crença e fica danoso ao conhecimento. Exemplo: Hipátia foi uma filósofa e matemática extraordinária, assassinada por cristãos em 415. Não devemos silenciar sobre isto. Mas, Platão e Aristóteles são muito mais importantes do que Hipátia. Fazer um extenso curso sobre ela e ignorar Aristóteles por ser homem branco ou Platão por ser rico e europeu é pura infantilidade e militância burra. Visibilidade e fim do machismo acadêmico, sim! Mudança total de um currículo, ocultando X e exaltando Y unicamente porque Y nasceu em Papua Nova Guiné e X em Londres, é argumento fraco.

O artista plástico Nuno Ramos declarou recentemente que o “Brasil está em um estado que é como se fosse o inconsciente exposto em praça pública. É muito estranho, como se o inconsciente tivesse emergido com uma violência que a gente freava, que a gente disfarçava. Que análise o senhor faz dessa situação e qual é a gravidade dela? O senhor acha que é papel dos educadores conscientizar os alunos dos perigos dessa situação, a fim de evitar uma barbárie?

A barbárie já existe e está escancarada. Basta sair às ruas das grandes cidades ou abrir um jornal. Entendo a boa análise de Nuno Ramos, mas nosso inconsciente está exposto há bastante tempo. Os espaços da sala de aula, por exemplo, convivem com violências e preconceitos há décadas. O tráfico invade escolas, professores apanham de alunos, a disciplina foi para o brejo, muitas escolas estão sucateadas e há agressividade (racismo, misoginia, lipofobia, homofobia, etc.) latente e declarada nas aulas, nos pátios e na sala dos professores.

Talvez, com redes sociais, o fluxo de consciência constante e sem limites, estejamos olhando o rosto da Medusa e um pouco petrificados com isto. O que ocorre hoje é que as violências estão se fazendo sentir também em espaços que antes se achavam preservados dela. O susto maior está em determinados setores sociais que criaram e mantiveram bolsões de aparente normalidade ao longo das últimas décadas. Acho que, para melhorar, ainda pioraremos mais. O momento é para quem apresentar resiliência em grau ninja.

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