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Os números estão vivos!

Diz Juan José Millás que os números não se dividem apenas entre pares e ímpares. Sofrem, assim como homens e mulheres, das idiotices que os fazem interessantes

A matemática é disciplina muito mais atraente quando associada à realidade, ao jogo, às narrativas, ao mistério. Sabia disso Malba Tahan, heterônimo de Júlio César de Mello e Souza (1895-1974), que na escola fora um péssimo aluno nesta matéria e, contrariando todos os prognósticos, justamente como professor matemática tornou-se inesquecível mestre, referência pedagógica no seu tempo. Em outro artigo voltaremos a lembrar Malba Tahan. Neste, refiro-me ao escritor espanhol Juan José Millás (1946-), cujo livro Números pares, ímpares e idiotas (Arxjovem, 2003) é uma boa forma de descobrir a vida dos números.

A história da matemática pertence à história humana. Os números estão sempre associados às preocupações de pessoas e de grupos. Tarefas como inventariar e administrar bens, comprar e vender, dividir e acumular, calcular perdas e ganhos, medir a passagem do tempo devem se realizar, primeiramente, com os dez dedos das mãos (a técnica corporal mais simples para contar), exigindo depois métodos cada vez mais complexos, à medida que mais complexas nossas necessidades se tornam.

Os números estão vivos porque estamos envolvidos com questões urgentes, contabilizando a existência em suas múltiplas dimensões. O modo de perceber a fascinante vida dos números, no livro de Juan José Millás, consiste em vê-los agindo e sofrendo como seres humanos. Os números não se distinguem apenas entre pares e ímpares. São idiotas também, têm suas idiossincrasias.

A idiotice refere-se a tudo aquilo que nos faz interessantes do ponto de vista filosófico, psicológico e literário: nossas pretensões, nossos equívocos, nossas ambições. Homens ou mulheres, de esquerda ou de direita, do Ocidente ou do Oriente, todos nos assemelhamos, no final das contas, por causa das nossas idiotices geniais – e estas são tudo aquilo que foge ao previsto.


Contando números e histórias

Ler histórias sobre números é uma forma encantadora de aprender a vê-los por novos ângulos. A primeira história conta a saga do Rei zero, mostrando a relação desse número com a noção de "nada". O zero não é um simples nada. Sem ele, todo o sistema viria abaixo. Mas o zero se engana redondamente sobre si mesmo. Entra em crise, perde o rumo. Não se considera um verdadeiro número. Ou melhor, pensa que é um número que não é um número.

O zero resolve fugir do mundo dos números em direção ao mundo do nada. E neste mundo do nada, em que os doutores especializados em nada são os mais importantes e prestigiosos, descobre, embora não esteja muito seguro disso, que ele e o nada não são a mesma coisa. Deportado violentamente para o mundo dos números, é consagrado rei, torna-se o Rei zero. Jamais compreenderá, no entanto, por que "é preciso ser nada para ser tudo", frase que pode fazer sentido em diferentes contextos.

Juan José Millás brinca o tempo todo com números e palavras, identificando os conflitos humanos nos conflitos numéricos, ou vice-versa. Há um 8, por exemplo, que queria ser uma palavra "oito". Seu desejo revela, talvez, a ideia de que a palavra escrita é encarada como melhor do que um número. O pai do 8, porém, procura explicar-lhe que os números têm vantagens sobre as letras, e a mais evidente é que o 8, sendo número, tem maior facilidade para somar-se, dividir-se, desdobrar-se, ao passo que o "oito", sendo um conjunto de letras, entre muitas limitações, se tentar somar-se, enfrentará graves problemas:

    Oito
 + oito    
 Ooititoo

Os números se relacionam, interagem, transformam-se. Mas também estão sujeitos à solidão. Um 1 viúvo, cuja esposa (uma bela uma) morreu, ficará isolado de todos. E números viúvos, que muito amaram na vida apenas uma pessoa, e a ela se entregaram sem calculismo, mergulham em irreversível depressão: com viúvos assim é impossível fazer operações.


Os inumeráveis conflitos da vida


Viver é perigoso. Um sem-número de problemas, diariamente, persegue-nos a todos, sejamos muito ou pouco idiotas, sejamos até mesmo um zero à esquerda.
Outra das histórias, "O filho único", toca a questão da formação escolar. O número 1, querendo ser mais do que seus pais (um casal de uns que, fracassando em sua soma, teve um único filho 1), decide entrar na faculdade. Inicialmente se matriculou na carreira de 9, mas, assustado com as exigências, resolveu estudar para ser 8. Contudo, essa carreira também lhe pareceu ousada demais. E foi descendo: pensou em ser 7, depois em ser 6, 5, 4, 3, 2… até que finalmente se matriculou na carreira de 1, achando que não lhe custaria esforço algum chegar a ser o que já era…

O 1 descobriu, entre outras coisas, que os números romanos são letras que estudaram para ser números, e que, portanto, ele precisaria estudar a si mesmo, se quisesse encontrar-se. E nesse estudo, nesse autoconhecimento, o 1 percebeu algo surpreendente:

Durante muitos dias ficava estudando como ser 1 até o amanhecer, o que curiosamente fez com que aprendesse também como ser 2 e 3 e 4 e 5 e 6… Mas ele preferiu continuar a ser 1, sobretudo porque havia descoberto que ser um 1 era também a condição fundamental para ser o primeiro.

Há inumeráveis conflitos nesta vida, mas nada está perdido. A melhor saída para a superação é estudar a si mesmo, e estudar para decidir ser "si mesmo". Quando buscamos assim nossa verdadeira identidade, percebemos que, de fato, podemos ser muitas coisas. A condição sine qua non para sermos os primeiros em nossa própria vida, para vencermos, enfim, é preferir ser o que de fato somos.

Outras histórias, como a do 2 ignorante, do 4 mutilado, do matemático pedófilo, dos números árabes e do 5 diante do espelho transformam a matemática em campo aberto para a imaginação. Os números ocupam o nosso lugar, e é nesse momento que podemos atinar com várias verdades sobre a nossa condição – que a vida é, sim, ou oito ou oitenta; que podemos, e devemos, pintar o sete, e que, noves fora, resta-nos muito a aprender!


* Gabriel Perissé


(



www.perisse.com.br



) é doutor em Filosofia da Educação (USP) e professor do Programa de Mestrado/Doutorado da Universidade Nove de Julho (SP)