O “carro de professora” e o exercício da docência

Em mais um outubro em que a categoria é homenageada e retratada sob o estereótipo da “professorinha que vai a lugares longínquos no lombo de um burrico”, urge a necessidade de avançar na percepção e desafios da profissão, sobretudo no pós-pandemia

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“Concentrando na formação dos professores é perceptível a involução no sistema brasileiro, onde o currículo nos cursos de licenciatura, segue privilegiando o ensino de jaboticabas” (foto: Envato Elements)

Lembra dessa expressão? Caso seja jovem e não tenha conseguido associá-la ao seu significado, essa já foi a senha para compradores de carros usados terem segurança de estar adquirindo um veículo conservado, bem tratado, pouco usado, dirigido por uma mulher e principalmente: confiável!

No mês em que celebramos o dia do professor, cabe uma provocação sobre as transformações pelas quais a profissão tem passado nas últimas décadas no país. Até bem pouco tempo era vista como única ocupação profissional possível às mulheres e de qualificação técnica: o antigo magistério. Como resquício histórico e de compreensão social, ainda hoje as mulheres são maioria nas primeiras etapas da educação, somando 96% dos professores da educação infantil. Esse número vai decrescendo à medida que avança o nível das etapas de ensino, chegando a 58% no ensino médio e 45,5% no ensino superior.

A questão de desigualdade de gênero já é, por si só, muito complexa, somada às dificuldades na formação superior das licenciaturas e, mais ainda, de acesso à formação continuada, seja pela baixa remuneração, que inclusive (já que estamos relembrando décadas passadas!) foi citada com humor pelo inesquecível Professor Raimundo, personagem de Chico Anísio: “E o salário ó…”.

Leia: A reinvenção dos docentes

São dificuldades históricas por todos os lados. O problema, visto sob a perspectiva histórico-social, está no fato de que o próprio sistema vem perpetuando esse estado de coisas, incapaz de promover a mudança a partir de si mesmo, de transmutar o que deveria ser o núcleo-motor do processo educativo: o próprio professor!

Concentrando na formação dos professores é perceptível a involução no sistema brasileiro, onde o currículo nos cursos de licenciatura, segue privilegiando o ensino de jaboticabas – termo usado pelo Claudio Moura Castro para designar o currículo escolar do país como único, assim como essa fruta, mas totalmente anacrônico, incapaz de suscitar aprendizagem significativa e eficaz.

Exemplos disruptivos, interessantes de formação de professores para adoção de metodologias de ensino customizadas, hands on, que colaboram para o desenvolvimento do pensamento criativo e empreendedor não faltam. Um deles é a Universidade de Stanford, cujo programa, chamado iSTEP[1] busca unir a teoria à prática e chamar à discussão os profissionais das diferentes áreas para compartilhar vivências e chegar a um plano de como evoluir em práticas locais, além de formar professores no próprio ambiente de trabalho: as escolas.

Mentores, mas eternos aprendizes

Aprendemos com o Dr. Lee Schulman, professor emérito de Stanford, pesquisador sobre a formação e a profissão docente, a importância de uma capacitação interdisciplinar dos professores. Uma de suas propostas mais interessantes é que a teoria seja aplicada ao campo prático, assim como na medicina, observando profissionais em ação, com pacientes (estudantes), casos clínicos (ambientes de aprendizagem) reais, e posteriormente reflexão sobre a prática (Fellows e Debriefing). Sendo assim, o professor se torna também um mentor, mas sobretudo um eterno aprendiz. Nada mais adequado ao mundo em que vivemos.

Em mais um 15 de outubro em que somos homenageados e presenteados, em que reportagens enfatizam a professorinha que vai a lugares longínquos no lombo de um burrico ou atravessa pinguela para lecionar, geralmente em escolas precárias, é preciso avançar na ideia de que esse profissional precisa receber uma formação diferente. E um bom começo seria traduzir isso em cursos de pedagogia igualmente diferentes: originais, inovativos, com a cara do mundo tecnológico, ambíguo e complexo que vivemos, e não somente com os teóricos e críticos. Importantes. Mas não são suficientes para dar conta do imenso trabalho que será o de educar uma geração pós-pandemia.

Pedagogia pós-pandemia precisa formar pessoas criativas, amistosas e empáticas. Com a capacidade de se emocionarem e serem felizes. Será poder catapultar os jovens estudantes para o salto emocionante e imprevisível que é viver!

O carro da professora precisa ser substituído pelo cabo de um bungee jump: igualmente seguro e confiável. Amparado na formação sólida, na preparação e na atualização, que sempre sustentará saltos para a aventura mais incrível da humanidade, que é o conhecimento. Capaz de criar em torno de si, uma constelação de aprendizes perenes, um exército capaz de transformar o mundo!


[1] Stanford Teacher Education Program, iniciado em 2010. (Programa de Educação de Professores de Stanford).

Leia também:

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Autor
Doutora em sociologia da educação e reitora na UVA, Rio de Janeiro. Escreve em coluna mensal na plataforma Ensino Superior.

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