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Supervalorização das competências socioemocionais em um mundo mentalmente adoecido

À medida que crescem, jovens perdem habilidades socioemocionais. Escolas e universidades precisam garantir isso aos estudantes, mas saúde mental de professores também está desgastada; para os povos indígenas a realidade é ainda mais cruel com a sua identidade e direitos desrespeitados

Um mapeamento desenvolvido pelo Instituto Ayrton Senna revelou que 70% dos estudantes no estado de São Paulo relatam sintomas de depressão e ansiedade; um número alarmante. No âmbito escolar, infelizmente, eles não são o único grupo: 60% dos docentes brasileiros relatam problemas de ansiedade e estresse recorrente, e quase 50% deles não recomendam a profissão como carreira aos estudantes, revelam dados de pesquisas feitas pela Nova Escola, com 5 mil docentes, e pelo Todos pela Educação, com 2.160 profissionais da área. E a recíproca é verdadeira: a grande maioria dos jovens também não têm interesse na carreira de professor.

Se conviver com cerca de 30 personalidades estudantis e realidades diferentes sob a responsabilidade de uma única pessoa é estressante, a falta do convívio se mostrou muito pior. E isso ficou evidente no retorno às aulas presenciais com surtos coletivos de ansiedade entre estudantes de escolas em diferentes pontos do país. A psicóloga especialista em neuropsicologia Leonice Fonseca explica que o fenômeno é chamado ‘síndrome da gaiola’. “O longo período de isolamento social resultou no medo de ir para a escola, de sair na rua, deixando claro que o desenvolvimento social também é fundamental para o estabelecimento da saúde mental.”

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E em uma sociedade cada vez mais adoecida mentalmente, como em um embate de forças opostas, as competências socioemocionais são cada dia mais valorizadas. Contudo, o conjunto de situações coletivas e individuais experienciadas nos últimos tempos comprometem o desenvolvimento de tais competências. Relatório recente da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), investigou as habilidades de estudantes de 10 e 15 anos de nove países.

Alerta nas competências entre estudantes de 10 a 15 anos

Apesar da relevância dessas competências em todas as etapas, os jovens de 15 anos relataram, em média, níveis mais baixos de competências socioemocionais do que seus colegas de 10 anos, independentemente de seu gênero e origem social. Outros estudos internacionais e nacionais indicam um padrão de que os níveis voltam a subir entre estudantes do ensino médio. 

“Ou seja, a etapa dos anos finais do ensino fundamental, geralmente próximo dos 14 e 15 anos, representa o chamado ‘vale’ nas competências, chamando a atenção para a necessidade de uma intervenção ainda mais especial para o desenvolvimento nesta fase”, diz o estudo traduzido e divulgado pelo Instituto Ayrton Senna. Entre as competências que mais demonstraram queda entre os estudantes de 10 e 15 anos foram otimismo, confiança, entusiasmo e iniciativa social.

Sociedade da exclusão

Quem pode falar de forma ainda mais empírica sobre a defasagem nesses aspectos são os indígenas. “A cada ano piora essa situação”, conta Marcio Vera Mirim, cacique Guarani Nhandeva, da aldeia Yvy Porã, localizada na Terra Indígena no Jaraguá, em São Paulo.

“Esses casos de vulnerabilidade mental são muito fortes entre a gente. Dentro do nosso território priorizamos os saberes tradicionais, o ‘estudo escolar’ não é tão efetivo dentro do nosso território. As crianças sofrem com o bullying por causa da diferença da fala, mesmo quem fala português tem uma fala mais “embolada”, porque cresce falando a língua materna. A maior parte só vai aprender português em contato com a escola pública mesmo”, revela.

As línguas maternas faladas na aldeia Ivy Porã são o guarani nhandeva e o guarani mbya, que legam o nome das respectivas etnias.

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A aldeia Ivy Porã é rodeada por rodovia e pela realidade da megalópole que é São Paulo, como resultado, o surgimento e aumento de casos de depressão, ansiedade e até mesmo suicídio, estão diretamente ligados à demarcação de terras, explica o cacique. Ainda hoje, para os vizinhos não-indígenas, falta compreensão e respeito à cultura, deixando a nação Guarani ainda mais vulnerável e deslocada (o que também é a realidade das demais etnias brasileiras), com pouca oportunidade de melhores níveis escolares e inserção no mundo do trabalho. 

Falta de perspectiva para os jovens

“Depois de completar o ensino médio, nossos jovens param de estudar por causa dessa situação toda, o que acarreta em uma grande falta de melhores níveis educacionais entre a gente – justamente o que é exigido lá fora”, comenta o cacique Marcio, o qual reforça que isso só aumenta a falta de perspectiva e esperança para o futuro, deixando as pessoas espiritualmente adoecidas, como afirmam os indígenas mais velhos.

O líder indígena comenta que recebem assistência apenas pelo Capes, do Sistema Único de Saúde (SUS), onde geralmente são dados “muitos remédios para dormir e as pessoas não melhoram”, diz. Ele conta que eles mesmos se tratam dentro dos ritos de sua própria cultura, por meio de remédios e rezas feitas pela liderança espiritual e curandeiras, e garante os resultados: “das muitas pessoas que sofrem depressão, muitas querem tirar a própria vida, mas fazem o ritual de cura, tomam remédios e melhoram”.

De um lugar onde ele se vê com mãos atadas para modificar a realidade do crescente adoecimento mental, o cacique diz que a responsabilidade para uma solução é da “chefia [Estado] dos não-indígenas”, uma vez que para estes povos, toda a situação está diretamente relacionada à não demarcação de terras, que os afetam em todos os outros âmbitos.


Grande Encontro da Educação

Leonice Fonseca e Marcio Vera Mirim estarão presentes no painel A urgência da saúde mental na escola, dia 17 de agosto, no Grande Encontro da Educação, que chega à oitava edição. Ana Carla Crispim, gerente de projetos no Instituto Ayrton Senna, também participará da mesa. Promovido pela Plataforma Ensino Superior e Plataforma Educação, o evento ocorrerá entre 16 e 19 de agosto, de forma híbrida e com inscrições gratuitas. O encontro será híbrido nos dias 16 e 17 de agosto e somente online nos dias 18 e 19. Mais de 50 palestrantes estão confirmados.

Onde: Inteli (Instituto de Tecnologia e Liderança), localizado no campus Cidade Universitária da USP. 

Inscrições gratuitas: https://grandeencontrodaeducacao.com.br/ 

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