Empresas

Colunista

Márcio Sanches

Professor na na graduação e pós-graduação da EAESP/FGV e nos MBAs da FIA

Lifelong Learning: as universidades corporativas são ameaças ou oportunidades para as IES?

Destinadas à capacitação de colaboradores, fornecedores, clientes e, até mesmo, parceiros dos negócios do grupo, estas estruturas de educação continuada ofertam programas sob medida às necessidades de desenvolvimento de competências de organizações empresariais especificas

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As Universidades Corporativas são organizações criadas por grupos empresariais com a finalidade de desenvolver e difundir conhecimentos, técnicas e valores considerados estratégicos para o sucesso de seus negócios. Destinadas à capacitação de colaboradores, fornecedores, clientes e, até mesmo, parceiros dos negócios do grupo, estas estruturas de educação continuada ofertam programas sob medida às necessidades de desenvolvimento de competências de organizações empresariais especificas. 

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As primeiras Universidades Corporativas surgiram nos Estados Unidos, no século passado. A pioneira e mais conhecida delas é a Crotoville Management Development. Criada em 1955 pela General Electric (GE), a Crotoville tinha como objetivo complementar a formação acadêmica de seus colaboradores, uma vez que a organização considerava que as escolas tradicionais não acompanhavam o ritmo das mudanças do mercado, comprometendo, assim, a formação que a GE demandava de seus profissionais.

Depois da General Eletric, outras corporações, como é o caso do McDonald’s, Disney e outras, criaram suas próprias Universidades, buscando aprimorar os conhecimentos e habilidades de seus técnicos, adequando-os às necessidades de operação e competitividade das empresas, de modo que atualmente muitas corporações internacionais mantém Universidades Corporativas. 

No Brasil, uma das primeiras Universidades Corporativas foi a Academia Accor (Universidade de Serviços do Grupo Accor do Brasil), fundada em 1992. Para a implantação da Academia brasileira, o grupo francês que atua no ramo de hotéis e serviços de alimentação em vários países, tomou como base a academia de serviços que o grupo já mantinha em seu país de origem.

Atualmente, o Brasil abriga centenas de Universidades Corporativas em funcionamento em praticamente todos os setores da economia

Organizações como Petrobras, Banco do Brasil, Ambev, Algar, Sebrae e, até mesmo, a Polícia Federal possuem suas Universidades Corporativas. O mesmo movimento acontece no próprio setor de educação superior.  Vários grupos possuem Universidades Corporativas para desenvolver seus colaboradores e parceiros, como é caso da Universidade Cogna, da Universidade Corporativa Cruzeiro do Sul Educacional, além do Semesp que, desde 2014, mantém uma Universidade Corporativa que oferta cursos e programas voltados a qualificar colaboradores de IES de todo o país em conhecimentos e técnicas específicas do interesse do setor de ensino superior privado. Mais recentemente, o Fórum das Instituições Filantrópicas (Fonif) também criou sua Universidade Corporativa com uma série de capacitações especificas para as instituições sem fins lucrativos das áreas de educação, saúde e assistência social.   

Diferentemente das instituições que fazem parte do sistema formal de ensino, como é o caso das Instituições de Ensino Superior (IES), as Universidades Corporativas não são credenciadas, reconhecidas ou avaliadas pelo Ministério da Educação (MEC) e também não estão habilitadas a emitir diplomas ou certificados reconhecidos pelo Sistema Nacional de Educação. Elas ofertam cursos livres, voltados a atender às necessidades das pessoas que integram as organizações e sua cadeia de valor. Os conteúdos e os componentes dos seus cursos e programas não seguem diretrizes curriculares propostas por organismos públicos ou de classe.

A oferta é bastante flexível, modularizada de acordo com as necessidades da organização e das pessoas envolvidas. Os docentes são predominantemente profissionais da organização ou especialistas em temas considerados relevantes. O reconhecimento dos cursos é restrito à própria organização e sua cadeia de valor, mas em grande parte das vezes as certificações são requisitos para o avanço na carreira da empresa e acabam sendo valorizados por outras organizações do setor.

Muitos mantenedores e gestores apontam as Universidades Corporativas como uma ameaça aos seus negócios, em especial aos cursos da área de gestão e tecnologia

Um dos motivos desse apontamento decorre pelo fato de que as Universidades Corporativas ofertam produtos substitutos aos programas formais, regulados pelo Sistema Nacional de Educação. Por exemplo, ao invés de um profissional cursar uma pós-graduação em gestão de projetos em uma instituição de ensino superior regular, ele opta por cursos livres ofertados e certificados pela Universidade Corporativa de sua empresa que, mesmo sem reconhecimento do MEC, é valorizado por sua organização. 

Outra razão é o fato das Universidades Corporativas estabelecerem parcerias com instituições de ensino formais, ofertando cursos regulares para seus colaboradores e, tornando-se assim, substitutos, novos entrantes ou rivais no mercado onde a IES atua. Nesses casos, realmente as Universidades Corporativas representam ameaças competitivas às IES tradicionais e devem ser monitoradas como recomenda Michael Porter, professor da Harvard Business School e uma das principais referências da gestão estratégica de empresas. 

Fontes de oportunidades

Por outro lado, o core business das organizações empresariais que criam suas Universidades Corporativas raramente é a educação e, nesse sentido, as Universidades Corporativas são fontes de várias oportunidades para as IES. Dentre essas oportunidades, destacam-se: o desenvolvimento dos programas personalizados; o fornecimento de conteúdos e componentes curriculares para programas; o estabelecimento de convênios para que os colaboradores da organização cursem programas regulares da IES; a disponibilização de espaço físico e recursos tecnológicos para capacitações e eventos; dentre outros serviços e produtos que normalmente são demandados por essas organizações, que em geral, possuem uma estrutura bastante enxuta para operar a Universidade Corporativa.

Além das oportunidades citadas, a aproximação da IES com o mundo corporativo pode gerar uma série de outros benefícios intangíveis como o acesso a recursos (tecnológicos, talentos, conhecimentos etc), acesso a clientes (colaboradores, fornecedores, clientes e parceiros da organização), aprendizado, imagem, entre outros.

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Por fim, as universidades corporativas devem ser encaradas como um potencial parceiro estratégico para as Instituições de Ensino Superior que queiram atuar em educação continuada.

Marcio Sanches é doutor em administração de empresas pela EAESP/Fundação Getúlio Vargas. Professor na graduação e pós-graduação da EAESP/FGV e nos MBAs da FIA. Coordenador da Universidade Corporativa Semesp. Leia mais do autor.

Por: Márcio Sanches | 22/11/2022


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