Educação

Colunista

Alexandre Gracioso

Especialista e consultor em ensino superior e gestão educacional

O valor da presencialidade na formação superior

Ainda que a tecnologia tenha evoluído assustadoramente rápido nos últimos anos, o desenvolvimento emocional continua a depender da presença

O valor da presencialidade Ao se privar da riqueza da experiência presencial, o estudante estará forçosamente se limitando (foto: Freepik)

Como resultado da pandemia da covid-19, o ensino superior no Brasil e no mundo passou e continua passando por enormes mudanças. Uma dessas mudanças foi a adoção em larga escala do ensino a distância (EAD).

Mesmo depois do fim da pandemia, a sociedade parece não ter se habituado à volta do ensino presencial no nível superior. A colega colunista Marina Feferbaum, em seu último artigo para a Ensino Superior, alerta para o fato de que as salas de aula presenciais estão se esvaziando e que mesmo os estudantes que vão ao campus demonstram engajamento cada vez menor (1).

Um dos principais pontos a se destacar do artigo é a necessidade de não se entregar a esse espírito de desinteresse e, pelo contrário, repensar a experiência universitária para novamente conquistar o engajamento das turmas.

Concordo plenamente com essa exortação e penso que essa revitalização da experiência presencial seja necessária por vários motivos. Um deles é o desenvolvimento de competências fundamentais para a sociedade contemporânea cujo desenvolvimento unicamente pela via do EAD seria muito mais difícil.

 

Competências em alta

 

Falar que as competências relacionais e soft skills em geral estão sendo cada vez mais valorizadas, hoje em dia, é praticamente chover no molhado. Ainda assim, muito embora soe repetitivo, a perspectiva oferecida por Aneesh Raman, VP da LinkedIn, vale ser conhecida.

No dia 31 de outubro de 2023, Raman gravou um programa no podcast Worklab, da Microsoft (2) e (3). Nessa interessante entrevista, ele afirmou que a vida útil de um diploma universitário está diminuindo rapidamente na era da IA. No lugar das competências específicas tradicionalmente desenvolvidas em cursos de ensino superior, que têm validades cada vez mais curtas, competências humanas, como adaptabilidade, criatividade, comunicação, flexibilidade são cada vez mais as grandes definidoras de um perfil profissional desejado.

Raman não está sozinho nessa avaliação, é claro. Relatórios de empresas como Mckinsey e organizações como Banco Mundial também falam da crescente importância das soft skills. Tenho certeza de que ninguém se oporia ao desenvolvimento dessas competências e habilidades durante o ensino superior (embora provavelmente não seria fácil chegar a uma visão compartilhada de qual seria o percentual ideal das horas de um curso que deveria ser dedicado a essa finalidade).

A grande questão, portanto, não é se a universidade deve fomentar o desenvolvimento de soft skills, mas como isso pode ser feito.

 

Literacia emocional e a importância da presencialidade

 

Literacia emocional é um conceito que se sobrepõe, em grande parte, à ideia de inteligência emocional. Podemos pensar na primeira como a habilidade de reconhecer as emoções e desenvolver um vocabulário e uma linguagem emocionais, enquanto a segunda pode ser compreendida como a capacidade de colocar essa linguagem em uso em situações cotidianas de relacionamento com os outros. A tabela abaixo resume de forma objetiva as diferenças entre os dois conceitos:

 

Característica Literacia emocional Inteligência emocional
Foco Compreensão das emoções Aplicação da consciência emocional
Habilidades Reconhecimento e expressão das emoções Gerenciamento das emoções, uso das emoções para tomada de decisão e resolução de problemas, empatia, adaptação às situações
Desenvolvimento Pode ser aprendida por meio de educação, autorreflexão e prática Desenvolvida por meio de experiências de vida, relacionamentos e esforço consciente
Analogia Aprender um novo idioma: o idioma das emoções Colocar o idioma emocional em ação

 

Um ponto que fica claro é a necessidade de prática para o desenvolvimento de ambas as habilidades, tanto a mais básica, a literacia emocional, quanto a mais sofisticada e aplicada, a inteligência emocional – ainda que a última requeira uma riqueza de experiências ainda maior para ser dominada.

Um nome fortemente associado à ideia de literacia emocional e alfabetização emocional é o do psicólogo francês, emigrado para os EUA, Claude Steiner. Em livros como Achieving Emotional Literacy (1997) e Emotional Literacy: Intelligence with a Heart (2003), ele defende a ideia de que precisamos passar por uma verdadeira alfabetização emocional, como parte do caminho em direção a vidas mais verdadeiras e saudáveis.

 

Leia: O papel do educador na autonomia do jovem aprendiz

 

Ele imaginava o desenvolvimento da literacia emocional como um processo em diversas etapas, que podem ser resumidas da seguinte forma:

  1. Reconhecimento e aceitação das emoções: o passo inicial é o reconhecimento; Steiner destacava a importância de sabermos identificar com precisão o que estamos sentindo. Somente depois disso é que podemos passar à etapa da aceitação;
  2. Expressão saudável das emoções: o passo seguinte consiste em dar vazão à carga emocional de forma construtiva, para si próprio e para os outros;
  3. Desenvolvimento da empatia: não basta saber me relacionar com a minha própria emoção, é preciso compreender e me relacionar saudavelmente com as emoções dos outros;
  4. Resolução construtiva de conflitos: em forte sintonia com a técnica da Comunicação Não Violenta, Steiner propõe a comunicação respeitosa e empática como base para resolução de conflitos.

Para esse percurso ser bem sucedido, uma mistura de preparo conceitual e prático é fundamental. Steiner pensava ser importante o conhecimento teórico das emoções, o desenvolvimento do alfabeto emocional. Mas ele destacava a relevância da prática e do contato, consigo mesmo e com os outros, como sendo fundamentais para a conquista desse autodomínio.

É claro que o desenvolvimento dessas habilidades, dessa competência, só pode ocorrer na plenitude por meio do contato com o outro, com outras pessoas, presencialmente. Ainda que a tecnologia tenha evoluído assustadoramente rápido nos últimos anos e que consigamos trabalhar de forma remota com elevada produtividade, o desenvolvimento emocional continua a depender da presença. Ao se privar da riqueza da experiência presencial, o estudante estará forçosamente se limitando. Especialmente se ainda não trabalhar, se não houver a necessidade de presencialidade em outra dimensão de sua vida.

 

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Com isso voltamos ao argumento inicial da professora Feferbaum, de que a universidade precisa se ressignificar para voltar a ser atraente ao estudante contemporâneo. A sala de aula não oferece uma experiência interessante ao estudante, especialmente ao jovem. Eles estão respondendo com os pés, por assim dizer, migrando em volume cada vez maior para o ensino a distância. Um repensar da experiência no campus, que passe por práticas que estimulem o desenvolvimento de relações humanas, pode ser um caminho para atrair de volta uma parcela desse público que está se direcionando para o EAD.

Por outro lado, não vou me juntar ao coro dos que acreditam que o ensino a distância precisa ser coibido; talvez essa tendência seja forte demais para ser revertida. Mas estaríamos em falta com a sociedade se não oferecêssemos alternativas para trabalhar o desenvolvimento emocional ainda que à distância. É possível que o resultado não seja tão potente; nesse caso o jovem precisa aprender mais com eventuais conflitos no ambiente profissional – conflitos que poderiam ser evitados com uma literacia emocional mais bem desenvolvida – mas pior seria fingir que esse trabalho não é importante, ou não é possível.

Idealmente, conseguiríamos criar um modelo tão atraente que mesmo estudantes de cursos no modelo EAD se sentiriam mobilizados para participar de incursões presenciais. Quanto aos estudantes em cursos que já são presenciais, se sentiriam motivados a se envolver muito mais do que atualmente o fazem.

Mais fácil falar do que fazer, sem dúvida. Mas também é certo de que este é um problema sobre o qual vale a pena nos debruçarmos.

 

Referências

 

(1) FEFERBAUM, Marina: Por que temos de ressignificar a universidade, disponível em https://revistaensinosuperior.com.br/2023/12/11/ressignificar-a-universidade/

(2) LinkedIn VP Aneesh Raman on Why Adaptability is the Skill of the Moment, disponível em https://podcasts.google.com/feed/aHR0cHM6Ly9mZWVkcy5saWJzeW4uY29tLzM2NTc5Mi9yc3M/episode/NWEyMjM4NzgtNDNkYS00YmQ4LWFmYjctOTdlZWMwNTMzZGNh?sa=X&ved=0CAgQuIEEahgKEwjggqCQypuDAxUAAAAAHQAAAAAQtiE

(3) Pioneer´s Perspective, The ‘shelf life’ of a college degree is ‘shrinking pretty dramatically’ in the age of AI, LinkedIn VP says, disponível em https://pioneersperspective.com/innovation/the-shelf-life-of-a-college-degree-is-shrinking-pretty-dramatically-in-the-age-of-ai-linkedin-vp-says/

 

Por: Alexandre Gracioso | 22/12/2023


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