Como estão as atividades acadêmicas em tempos de covid-19

Ajuda da tecnologia e a solidariedade entre seus colaboradores e docentes estão entre os principais aliados das instituições de ensino superior para driblar as restrições impostas pelo vírus

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Em meados de março, quando todos os governadores adotaram medidas de isolamento social para conter o avanço da covid-19, as instituições de ensino superior tiveram de se adaptar em tempo recorde para não interromper o calendário acadêmico. Com a liberação do MEC para a realização de aulas online em caráter excepcional, iniciou-se uma corrida para adotar ou intensificar o uso de recursos digitais.

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As instituições com pouca ou nenhuma experiência na modalidade a distância foram as mais impactadas, pois tiveram de preparar rapidamente seus professores para a dinâmica do ambiente digital, além de providenciar os sistemas e produtos que permitem o compartilhamento de materiais didáticos, a transmissão de aulas e a troca de informações. As primeiras semanas foram muito desafiadoras, contam os gestores ouvidos pela reportagem. Mas os resultados têm sido satisfatórios e até surpreendentes.

A cooperação entre alunos e professores e também entre os docentes é uma das faces positivas da crise. “Os professores estão se ajudando em questões tecnológicas, em uma espécie de apadrinhamento, rede de suporte e mentoria. Há professores que fazem vídeos com dicas de como realizar videconferências e como trabalhar com a iluminação e microfone, por exemplo”, conta Vidal Martins, vice- reitor da PUC-PR. “É importante dizer que não estamos migrando para o EAD. Adotamos as aulas remotas, onde o aluno e professor se encontram em uma sala virtual e onde é possível fazer conferências e compartilhar qualquer tela”, conta o vice-reitor da instituição paranaense, que optou por manter as aulas nos horários habituais para não afetar a rotina dos alunos.

A instituição também registrou casos de solidariedade entre os estudantes, que se dispuseram a emprestar computadores ociosos para colegas necessitados. Para contornar este que é um dos aspectos mais críticos da migração para o online – a falta de computadores e conexão estável com a internet –, a PUC-PR optou por manter os laboratórios de informática abertos, mas com uma dinâmica diferente: respeitando a distância mínima entre os usuários e assegurando a limpeza dos ambientes. Os eventos programados, contudo, foram todos cancelados ou adiados.

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Corredores vazios na Cásper Líbero: sem experiência com aulas online, instituição precisou se adaptar rapidamente (foto: Gustavo Morita)

O desafio de mudar o projeto pedagógico

A Faculdade Cásper Líbero, localizada em São Paulo, não tinha experiência em aulas a distância até meados de fevereiro, quando optou pela suspensão das atividades em seu campus.  Welington Andrade, diretor da Faculdade, conta que eles ainda estão se adaptando às ferramentas tecnológicas escolhidas para dar continuidade aos quatro cursos de comunicação, com dez disciplinas ministradas em cada um deles por ano. Além de recorrer a plataformas de transmissão de videoaulas, a instituição estuda a utilização de outros recursos, como podcasts, para compartilhar conteúdos.

Com aulas suspensas desde o dia 14 de março, o Centro Universitário Belas Artes montou uma força-tarefa para conduzir as mudanças. Durante uma semana, os 200 professores, mais a equipe de coordenadores e colaboradores de todas as áreas, se dedicaram a propor soluções e a testar tecnologias para as aulas remotas, que começaram a ser realizadas no dia 23 de março nos horários a que os alunos já estavam acostumados e preservando o conteúdo acadêmico.

O centro universitário também sentiu a necessidade de auxiliar seus professores. Em uma iniciativa similar à que está ocorrendo na PUC-PR, um grupo de docentes assumiu a tarefa de dar suporte remoto aos colegas que não têm muita familiaridade com as novas tecnologias. Eles foram batizados “professores-anjos” e somam 30 pessoas, aproximadamente. “Temos vivido um dia de cada vez e nos preparamos para oferecer devidamente os cursos em real time”, relata Josiane Maria de Freitas Tonelotto, superintendente acadêmica da instituição, que também remanejou as aulas práticas, comuns a diversos cursos, para o final do semestre.

Este tem sido um dos aspectos centrais do processo de transição, pois o MEC autorizou as aulas a distância, mas não as atividades práticas em laboratório. Estas terão de aguardar o fim da quarentena para serem realizadas. Portanto, a solução para contornar essa barreira jurídica é antecipar o conteúdo teórico e até mexer na grade das disciplinas.

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Transição facilitada

As instituições com experiência no EAD ou na oferta de disciplinas a distância também enfrentaram desafios, embora em escalas diferentes. “A Uniesumar criou um comitê de crise e tivemos que pensar como se estivéssemos em uma operação de guerra, mantendo a qualidade do ensino e oferecendo condições para que todos os professores conseguissem trabalhar remotamente”, diz Andrea Borim, pró-reitora de ensino de educação presencial da instituição sediada em Maringá (PR). Na modalidade presencial, a instituição tem 17 mil alunos, enquanto no EAD são 225 mil.

“Criamos vários manuais com as ferramentas utilizadas. A comunicação da equipe de TI com os professores foi muito direta para facilitar o uso da plataforma LMS, utilizado em nossa EAD. O trabalho de engajamento foi muito grande e os professores ajudaram a testar ferramentas”, acrescenta.

Já a Ânima Educação, que tem 118 mil alunos, ampliou o uso do modelo acadêmico híbrido, que prevê a realização de uma parte das atividades a distância. Contudo, houve a preocupação de garantir que alunos e professores continuassem interagindo como se estivessem frente a frente. Para isso, a instituição também optou pelas aulas síncronas, que exigem de docentes e estudantes o compromisso de se conectarem no mesmo ambiente e ao mesmo tempo.

“Como já adotamos as aulas híbridas, conseguimos responder rapidamente a uma solução para nossos alunos, já que a maioria de nossos professores já estava treinada para atuar em ambiente virtual”, diz Rodrigo Neiva, diretor de personalização da vice-presidência acadêmica da Ânima.

 “A infraestrutura que já utilizávamos deu conta da demanda e hoje a participação nas aulas síncronas é de 92%. O curioso é que os professores que ainda não haviam atuado nas aulas híbridas estão descobrindo novas possibilidades. Muitos deles contam com o apoio dos docentes que já estão acostumados com a ferramenta. A palavra do momento é solidariedade e troca”, avalia Carolina Marra, vice-presidente de pessoas e transformação digital do curso

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Sala de aula da Anhembi Morumbi: com a realização das atividades acadêmicas no ambiente virtual, a expectativa é manter o calendário acadêmico (foto: Gustavo Morita)

Aulas ao vivo

Quem também está realizando aulas remotas “ao vivo” é a Estácio, que tem mais de 300 mil alunos matriculados. “Essa é uma situação excepcional e de transição até que tenhamos retorno das aulas presenciais. Não estamos oferecendo os cursos do nosso portfólio EAD, mas sim propondo uma solução diferente, em que o professor está igualmente escalado para a aula, no mesmo horário, com o mesmo conteúdo”, explica o vice-presidente de Operações Presenciais da Estácio, Adriano Pistore.

Entre os professores da instituição que relataram uma experiência positiva está Lilian Coelho, professora do curso de Direito. “Os alunos participam, interagem e tiram dúvidas. Contamos com o apoio da equipe de TI para que tudo corra bem. As aulas têm sido muito elogiadas pelos alunos. Todos estão empenhados em colaborar”, comemora.

Rodrigo Capelato, diretor executivo do Semesp, ressalta que as aulas síncronas constituem uma “metodologia de ensino muito diferente do tradicional modelo de EAD, no qual os conteúdos são em grande parte gravados e reaproveitados em larga escala, o que permite uma redução de custos a essa modalidade”. O executivo também destaca que as instituições privadas, que são responsáveis por 75% das matrículas no ensino superior no Brasil e garantem a formação acadêmica de mais de 6 milhões de estudantes em todo o país, “mantiveram com o uso dessa metodologia o contato direto e diário entre alunos e professores, e estão conseguindo dar continuidade ao ano letivo sem prejuízo na aplicação dos conteúdos e nem tampouco na qualidade de ensino”.

Por esse motivo, não há razão para a redução das mensalidades, informa a entidade, que criou a campanha O valor da educação. “Os custos com o corpo docente, que mantém sua dedicação ministrando as aulas de forma remota e buscando ajustar o plano de aulas a essa realidade, continuam rigorosamente os mesmos. Assim como ocorre com os custos com os demais colaboradores, que desenvolvem suas atividades em regime de home office”, pontua Capelato. Considerando o caso das instituições que tiveram de contratar tecnologias educacionais e realizar programas de treinamento para os professores, os custos até subiram.

A entidade, contudo, reconhece que os alunos poderão enfrentar dificuldades financeiras nos próximos meses. Porém, a posição é a de que os casos devem ser tratados individualmente, de acordo com as condições de cada um.

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Inadimplência e evasão

“Haverá um impacto econômico muito grande e já estamos pensando em formas para flexibilizar o pagamento das mensalidades”, reconhece Vidal Martins, da PUC-PR, ao comentar as consequências financeiras da pandemia. A Ânima também estuda um plano para ajudar os alunos que, eventualmente, terão dificuldade para pagar as mensalidades, como os profissionais liberais, adianta Carolina Marra.

Quanto ao risco de aumento nos índices de evasão, Josiana, da Belas Artes, afirma que “ainda não há dados sobre isso, mas é possível que cresça o percentual de evasão. O que estamos fazendo é procurar alternativas para oferecer aos nossos alunos. A taxa de matrícula, que havia caído no último ano, apontou recuperação neste primeiro semestre, mas diante do impacto do coronavírus esse quadro pode mudar no futuro”.

Os que têm uma postura mais otimista apostam na capacidade de adaptação dos alunos. Sara Pedrini Martins, vice-presidente acadêmica da Laureate Brasil, que reúne FMU, FIAM/FAAM, Anhembi Morumbi e Business School São Paulo, diz que até o momento não sentiram mudanças relacionadas à evasão e entendem que a decisão de manter as aulas ao vivo, por meio de uma plataforma que permite a interação entre professores e alunos, contribuirá para que os estudantes percebam a mudança temporária de forma positiva. “Entendemos que essa crise impacta os planos das pessoas, empresas e governo no mundo todo, e não seria diferente conosco, nem com o segmento de educação. Mas estamos trabalhando de forma ágil e integrada para mitigar riscos”, pondera a executiva.

As aulas remotas começaram a ser ministradas no dia 16 de março. “Os professores estão lecionando normalmente. As plataformas permitem trabalhos em grupos, apresentações, seminários, aulas expositivas. Com isso manteremos nosso calendário acadêmico inalterado para todos os cursos”, diz Martins. Apenas as aulas práticas e os estágios precisarão ser repostos.

Universidades públicas enfrentam dificuldade para adotar o ensino a distância

Um levantamento feito pela Folha de S. Paulo mostrou que das 63 universidades federais do país, ao menos 38 decidiram não usar aulas a distância durante a quarentena de prevenção ao coronavírus. A decisão de suspender as aulas temporariamente se deve ao fato de muitos alunos não terem condições de acompanhar as aulas virtuais por falta de computadores e/ou conexão estável com a internet.

USP covid
Foto: Marcos Santos/USP

O último levantamento feito pela Andifes (associação de reitores das universidades federais), em 2018, apontou que 70,2% dos estudantes da rede federal são de famílias com renda mensal per capita de até 1,5 salário mínimo.

Na USP (foto), os estudantes de Letras estão reivindicando a suspensão das aulas online pelos mesmos motivos. Eles fizeram um abaixo-assinado em que ressaltam que “aula a distância não leva em conta a realidade dos alunos mais pobres e trabalhadores. Os alunos que não têm computador, ou acesso ao wi-fi, por exemplo”.

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