Extensão Universitária: vivência e formação interprofissional

“Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo” (Freire, 1981)

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Há tempos, a fórmula tradicional, baseada no roteiro preponderantemente disciplinarizado da grade curricular tradicional, vem mostrando esgotamento (foto: pexels)

A afirmação (acima) de Paulo Freire, cujo centenário celebramos no mês passado, suscita desafios bastante atuais à educação superior. A ressignificação do papel do educador, a proposta de comunidades de aprendizagem e a importância da consciência sobre o mundo para além dos livros e das salas de aula são alguns dos paradigmas educacionais que incentivam a renovação das práticas das instituições de educação superior no Brasil. Para os desafios atuais, uma das fronteiras mais férteis é da extensão universitária.

Leia: A quantas anda a curricularização da extensão por aí?

Tradicionalmente, tem-se como objetivo da educação superior as formações acadêmica, profissional e social aos(às) seus(suas) estudantes, preparando-os(as) para o mercado de trabalho. Trata-se, portanto, de atividade estratégica ao desenvolvimento econômico e social do país. A educação superior deve, ainda, formar essas pessoas também para o exercício da cidadania.

Embora esses objetivos permaneçam, a sociedade sofreu enormes transformações, com destaque para a evolução do digital com o surgimento da infosfera. Como as formas de ensino-aprendizagem se baseiam na organização da sociedade, nas relações econômicas e de trabalho e nas dinâmicas que impactam diferentes grupos sociais, é natural que essas transformações também ocorram na educação com a mesma intensidade. Há tempos, a fórmula tradicional, baseada no roteiro preponderantemente disciplinarizado da grade curricular tradicional, vem mostrando esgotamento. Daí explorar outros terrenos autorizados pela regulação.

Evolução a partir da consciência sobre diferentes realidades

Na nova dinâmica social, cada vez mais mutante, instituições de ensino superior no Brasil e no exterior têm revisto muitas de suas premissas, incorporado inovações para endereçar realidades cada vez mais complexas. Surgem espaços abertos e flexíveis de aprendizagem, marcados pela autonomia e pela multiplicidade de agentes; a figura do professor-educador passa a ser aquela de facilitador de métodos de ensino mais ativos e significativos; o ensino mediado por tecnologias, tanto no presencial quanto no remoto, expande fronteiras e possibilita novas relações entre a universidade, os estudantes e seus objetos de estudo.

Fomentar o pensamento crítico, a inovação e a criatividade, formando profissionais capazes de trabalhar em prol do desenvolvimento científico, da inclusão social e da geração de trabalho e renda integram essas novas premissas. Trazer tudo isso para dentro do programa requer mais que a mera “boa vontade”. A transformação requer um processo, o qual deve passar, antes, por uma experiência concreta, uma vivência que estimule análise e reflexão, que construa seus paradigmas e internalize seus significados.

É aqui que entra a “mediação do mundo” proposta por Freire. Teorias de aprendizagem baseadas na experiência fundamentam-se no aprendizado como resultado das relações estabelecidas entre indivíduo e meio. A exploração de contextos distintos e a consciência sobre diferentes realidades por meio da experiência têm potencial de produzir reflexões que, por sua vez, informam a própria prática. Em outras palavras, a forma com que processamos os problemas e desafios enfrentados em situações concretas define as escolhas e decisões futuras, moldando a forma com que enxergamos e nos posicionamos perante aqueles problemas.

Responsabilidade social

Essas premissas de ensino, embora não sejam novas, assumem posição de relevância na prática de ensino atual. A Declaração Mundial do Ensino Superior, elaborada na última conferência da UNESCO, endossa a vocação e a responsabilidade desse nível de educação, especialmente no que diz respeito à importância de oferecer um ensino interdisciplinar, com foco no desenvolvimento de habilidades e aptidões que preparem os indivíduos para uma atuação em conexão com a realidade.

Ainda, desde 2019, o ranking internacional Times Higher Education passou a avaliar as universidades em relação aos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), estabelecidos pela ONU. Isso reflete a crescente expectativa de que as instituições de ensino superior produzam impactos para além do ensino e da pesquisa. A extensão universitária é mais que adequada para conduzir essa agenda.

A extensão universitária

A Resolução N⁰ 07 de 2018 do MEC representa um marco importante no reconhecimento e na valorização da extensão como pilar fundamental da universidade. Nesta norma, a extensão universitária é entendida como um processo interdisciplinar, político educacional, cultural e científico que articula o ensino e a pesquisa de forma indissociável e viabiliza a relação transformadora entre instituições de ensino superior e sociedade. Trata-se do reconhecimento da relação dialógica permanente entre a instituição de ensino e sociedade, por meio da qual a universidade deve pensar e se refletir na sociedade.

A resolução também evidencia o caráter formativo da vivência interprofissional e interdisciplinar dos estudantes, possibilitado pelo contato com questões complexas contemporâneas do contexto social.

Nos termos da nova normativa, a extensão representa, portanto, o resgate da função social da universidade e o canal por meio do qual estudantes e jovens profissionais desenvolvem a ética e a interpretação do mundo, bem como consolidam sua prática em relação ao contexto social.

Para que a extensão atinja seu potencial de viabilizar a aprendizagem conectada à realidade e comprometida com a transformação da sociedade, as instituições de ensino devem considerar as seguintes premissas:

Exploração do campo

Ações extensionistas devem ser baseadas na observação ativa e na exploração dos contextos e questões específicas dos indivíduos, grupos e localidades com as quais pretende atuar. Nesse processo, pressupõe-se a abertura ao diálogo intercultural e à troca de conhecimentos (saber acadêmico e saber popular).

Relevância

Cada instituição de ensino deve identificar sua vocação e/ou sua experiência acumulada a fim de atuar naquelas temáticas e práticas nas quais tem expertise e em que sua atuação terá maior impacto.

Método

As iniciativas devem ser planejadas e oferecidas levando em consideração, de um lado, o processo no qual os estudantes se engajarão, e, de outro lado, a intervenção externa. Do ponto de vista da relação com a sociedade, não basta a mera disponibilização de conteúdos, desconectados das circunstâncias concretas e sem o acompanhamento por parte da IES. Já em relação aos impactos pedagógicos da experiência extensionista, é necessário que haja um cuidadoso planejamento das etapas de experimentação, conexão com teoria, reflexão e avaliação. Clínicas, laboratórios e iniciativas de Aprendizagem Baseada em Projetos e pesquisa-ação são exemplos dessas metodologias.

Por diversas razões, a extensão universitária é uma oportunidade regulatória a ser explorada pelos programas universitários. Por exemplo: é fluida, sem conteúdo e formato predefinidos, o que permite maior experimentação e, portanto, aberta a inovação; comporta pluralidade com maior facilidade, servindo a diferentes programas de diferentes áreas e níveis ao mesmo tempo; é facilmente alterável, seja para criação, seja para modificação, seja para extinção de atividades; lida diretamente com demandas da sociedade, eis que voltada a enfrentar questões concretas existentes além dos muros da escola; possui vocação multi e interdisciplinar, pois lida com a complexidade do mundo real.

Leia também:

A reinvenção dos docentes

Autor
Coordenadora do Centro de Ensino e Pesquisa em Inovação (CEPI) e da área de metodologia de ensino da FGV Direito SP, onde também é professora dos programas de graduação e pós-graduação

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