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Universidade de Coimbra contra a fome

A mais antiga IES de Portugal destina verbas importantes para alimentar estudantes e parte da comunidade de Coimbra

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Universidade de coimbra
Ação social forte em uma cidade que respira a vida universitária há 700 anos (Foto: reprodução)

Um estudante universitário precisa ter bons professores, material de estudo adequado, laboratórios e bibliotecas bem equipados. Mas nada disso adianta se as necessidades mais básicas não estiverem supridas. Antes de tudo, os estudantes precisam ter um teto e estar bem alimentados. E cuidar disso também é tarefa da instituição de ensino, defende Amílcar Falcão, reitor da Universidade de Coimbra, a mais antiga de Portugal. Essa defesa não é apenas teórica: os programas de ação social da instituição a colocaram no 2º lugar no ranking global da Times Higher Education (THE) no quesito “segurança alimentar”.

O atual reitor explica que não se trata de uma ação que começou recentemente, ou por causa da pandemia. Ao longo dos anos, os gestores que administram a Universidade de Coimbra têm considerado como parte de sua missão principal a garantia de que os estudantes estejam bem alimentados. O programa oferece refeições subsidiadas a todos os alunos, além de cestas básicas a preço de custo para moradores de repúblicas.

Há alguns anos o benefício das refeições baratas foi estendido para moradores de rua e, mais recentemente, para profissionais de saúde. O atual reitor diz que é parte de sua obrigação manter as finanças equilibradas, mas considera que oferecer um prato cheio e saudável tem de ser visto como prioridade. “Dentro do nosso equilíbrio (financeiro) temos de fazer também o equilíbrio entre o bem-estar social e o lado acadêmico. A universidade é um todo e tem diferentes missões. A missão da responsabilidade social é muito importante”, afirmou em entrevista à Ensino Superior. Apesar de ser pública, a instituição cobra uma anuidade.

Os custos com a ação são altos, mas a marca humanitária da UC é maior

A graduação, em qualquer curso, custa cerca de R$ 4,5 mil para estudantes portugueses, mas o valor chega a ser dez vezes maior para estrangeiros. Para pagar suas despesas, a Universidade de Coimbra conta com um misto de verbas públicas, que vêm diretamente do Orçamento de Estado, e receitas próprias, que vêm das taxas cobradas aos alunos e projetos de pesquisa financiados por outras entidades e parcerias diversas.

Amílcar Falcão reitor UC
Amílcar Falcão, reitor. “É tão importante ter um aparelho novo no laboratório quanto ter os estudantes bem acolhidos” (Foto: reprodução)

“Os valores cobrados nas cantinas não pagam a própria comida. Outras instituições cobram bem acima”, diz o reitor. Para ele, contudo, não se trata de “déficit” na operação, mas de investimento no bem-estar discente. “Cada 10 cêntimos (de euro) no preço da refeição significa 200 mil euros por ano. Portanto, se custasse 20 cêntimos a mais, estaríamos a falar de meio milhão de euros de diferença. Mas nós preferimos suportar esse valor.” Ao manter um forte investimento nas ações sociais, a UC continua sendo capaz de atrair estudantes de todas as classes econômicas.

“Poderíamos ser mais elitistas e dizer que se não pagam mais, não comem. Mas tiraria uma característica que nos marca, a do humanismo. Somos uma universidade com responsabilidade social. É tão importante ter um aparelho novo no laboratório quanto ter os estudantes bem acolhidos. As coisas não são mutuamente exclusivas”, afirma. Portanto, a ação social traz como resultados a atração e manutenção dos melhores estudantes.

“Temos estudantes que, pelos seus próprios meios financeiros, não poderiam estudar na universidade. Isso é bom para o país – e para nós também. Porque as pessoas são a parte mais importante de qualquer sociedade e de qualquer organização. Nós temos o maior interesse em não ter abando- no, em ter nossos estudantes contentes, porque são eles que mais importam na universidade. O resto vem por acréscimo”, acredita Falcão.

Fortalecimento das bases locais

A instituição tem uma ação que vai além dos próprios estudantes. Antes da pandemia, a Universidade de Coimbra fechou um acordo com a administração municipal e uma das suas cantinas passou a atender também pessoas em situação de rua. Desde então, a demanda só cresceu, mas a universidade manteve o atendimento. “Isso para nós tem um custo de 100 mil euros por ano. Mas fazemos o quê? Deixamos de alimentar essas pessoas que estão sem abrigo? Quando fizemos o protocolo, não era essa a intenção. Mas, à medida que a situação foi piorando com a pandemia, a universidade não podia se retirar de um local onde está alimentando pessoas que passariam fome se não fosse pela refeição que podem ter ali”, pondera.

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Outra iniciativa que tem um impacto amplo é o fornecimento de cestas alimentares para moradores de repúblicas. Nem todos os que moram ou se alimentam nessas repúblicas estão matriculados na instituição. “Às vezes tem lá pessoas que não são estudantes da universidade, mas são pessoas de idade equivalente que por algum motivo não estão na universidade neste momento. Algumas já estiveram, terminaram, ou interromperam. Mas consideramos que é nossa responsabilidade social atendê-las igualmente”, explica o reitor.

Além de alimentar pessoas do círculo universitário e de fora dele, as iniciativas ainda promovem a produção local. “Temos produção própria e compramos produtos da região. Com isso, dinamizamos o comércio local. Pequenos empresários agrícolas têm na universidade uma forma de escoar o seu produto a um preço interessante”, diz Falcão. Na região há produção de hortaliças, frutas, arroz e cereais.

As repúblicas e a coletividade

Os itens alimentares da casa onde moram sete estudantes, são comprados duas vezes por semana. A universidade tem uma lista de produtos em estoque e os estudantes dizem o que querem, em quais quantidades. O preço cobrado é o de custo, o que, de forma geral, representa a metade do que teriam de pagar num supermercado. Mas a lista não supre todas as necessidades.

Paços da República Baco - fundada em 1934
Paços da República Baco – fundada em 1934 (Foto: reprodução)

“Sem dúvida, nos ajuda muito, mas já foi melhor. Antes, tinha mais variedade. Cada semana parece que tem algum item a menos. O que falta, a gente precisa ir no mercado para complementar”, afirma Pedro Quesado, 19 anos, aluno brasileiro de engenharia biomédica, que chegou a Coimbra para estudar em 2019. “Como o dinheiro é curto, a gente sempre tenta ao máximo comprar os produtos da universidade.” As repúblicas são também uma espécie de tradição da Universidade de Coimbra. Seus moradores vão se renovando, mas elas se mantêm como associações por gerações de estudantes.

A república onde mora Quesado, chamada Rás-Teparta, existe desde 1943. Atualmente, seus moradores fazem todas as refeições lá, além de poderem acessar as cantinas se desejarem. A cada semana um dos estudantes se responsabiliza pelas compras e pelo cardápio. A Paços da República Baco, fundada em 1934, é a segunda mais antiga ainda em atividade. Além dos oito moradores, estudantes de cursos das mais diversas áreas, do Design à Medicina, outras duas pessoas se alimentam diariamente lá.

A sede fica em um prédio que é de propriedade da universidade, fazendo com que ela seja a “senhoria” dos estudantes. Os alunos responderam à reportagem coletivamente. E, coletivamente, eles decidiram que a alimentação no local é vegana. “A maior parte da nossa alimentação é fornecida pela universidade, mas alguns produtos específicos não são, então fazemos compras nos mercados regulares desses produtos não fornecidos, como por exemplo leite vegetal, cereais, condimentos, produtos de limpeza e higiene específicos”, contaram.

Mesmo com os subsídios, os custos da alimentação são considerados pesados pelos estudantes; mais de um terço dos gastos totais para se manter. “A casa tem a política de ter as portas abertas para a comunidade, o que faz com que eventualmente pessoas de fora da casa façam refeições conosco”, dizem. Se não houvesse o subsídio, eles dizem que seria mais difícil para que todos os do grupo se mantivessem estudando. “Principalmente para os estudantes internacionais, que, na UC, pagam uma mensalidade mais de 10 vezes superior às dos estudantes nacionais.”

Espírito de Comunidade

Com o fantasma da fome que voltou a assombrar vários lugares do mundo desde o início da pandemia da covid-19, a ação social da tradicional universidade portuguesa pode servir de inspiração para outros lugares. Mas o próprio reitor reconhece que não é possível apenas replicar o modelo, porque a instituição e a cidade têm características muito peculiares. “Nas cidades maiores é difícil. Em Coimbra, muita coisa gira à volta da universidade”, comenta Falcão, sobre a cidade com pouco mais de 100 mil habitantes, onde se pode fazer quase tudo a pé.

Outra diferença fundamental é que a Universidade de Coimbra não terceiriza os serviços de alimentação. “Nós temos nossos próprios armazéns, cozinheiros, nutricionistas. Fazemos tudo – e isso não é fácil de replicar”, avalia. A ação social forte, em uma cidade que respira a vida universitária há setecentos anos, faz com que os estudantes desenvolvam no decorrer do curso uma sensação de pertencimento à comunidade.

Na pandemia, esse sentimento pôde ser comprovado na prática. A UC abriu um chamado para 50 voluntários, para ajudar no centro de testagem, com supervisão do laboratório da universidade. Mais de 400 se ofereceram. “Nós pedimos às pessoas que se mobilizassem e imediatamente conseguimos centenas para ajudar. Isso revela a forma como as pessoas veem a vida em comunidade, como são solidárias, capazes de dar uma parte do seu tempo e seu trabalho à comunidade. É uma mentalidade que se vai cimentando, que faz parte da formação que aqui temos”, afirma o reitor.

Mais ações

Antes da pandemia, a universidade já oferecia ajuda para alojamento, alimentação e também creche gratuita para filhos de estudantes. No auge da doença, mais um braço da ação social foi necessário: o apoio psicológico.

Ao identificar que muitos estudantes estavam com dificuldades emocionais, a instituição lançou um programa de atendimentos gratuitos para toda a comunidade universitária, assim como para profissionais de saúde. Mesmo depois que a covid-19 passar, a previsão é que o programa se torne permanente. É mais uma forma de a universidade garantir o bem-estar dos seus estudantes e fortalecer a comunidade.

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