Educação

Colunista

Glauson Mendes

Mentor em Marketing Educacional

Uma perspectiva para o futuro do ensino superior no Brasil: reflexões sobre democratização, inovação e sustentabilidade

Ao considerar a democratização do ensino superior, é necessário ampliar o debate sobre as políticas públicas de inclusão, garantindo que todos tenham acesso à educação de qualidade e às oportunidades que ela proporciona

Coluna Glauson Mendes Ao considerar a democratização do ensino superior, é necessário ampliar o debate sobre as políticas públicas de inclusão

Como alguém que se preocupa profundamente com a educação e está escrevendo pela primeira vez para a Ensino Superior, gostaria de compartilhar minha visão pessoal sobre o futuro do ensino superior no Brasil. Essa visão é baseada em minhas reflexões, estudos e análises, e, embora eu não pretenda ter todas as respostas, espero que possa contribuir para o debate sobre a direção que devemos tomar como sociedade para enfrentar os desafios que se apresentam.

Ao longo das últimas décadas, a educação tem passado por mudanças significativas em todo o mundo, e o Brasil não é uma exceção. Muitos avanços foram conquistados, e destaco a incorporação de tecnologias nos processos educacionais e a expansão do acesso ao ensino superior. Segundo o INEP, o número de matrículas no ensino superior no Brasil passou de cerca de 2,7 milhões em 2000 para mais de 8,9 milhões em 2021 (Brasil, 2023).  Entretanto, ainda há desafios a serem superados para garantir uma educação de qualidade para todos e estreitar os laços entre as IES e a sociedade.

Ao considerar a democratização do ensino superior, é necessário ampliar o debate sobre as políticas públicas de inclusão, garantindo que todos tenham acesso à educação de qualidade e às oportunidades que ela proporciona. Dados do IBGE divulgados na 2ª edição de seu relatório de Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil, mostram que apenas 7,6% de todos os alunos matriculados no ensino superior presencial eram negros, em oposição aos 44,9% autodeclarados brancos (Brasil, 2021). Existem ainda disparidades significativas em termos socioeconômicos, de gênero e entre pessoas com deficiência, que evidenciam a necessidade de expandir políticas de inclusão e equidade no ensino superior.

 

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Outro aspecto importante a ser considerado é a qualidade da educação básica, que influencia diretamente o desempenho dos estudantes no ensino superior. Um dos principais desafios é a falta de infraestrutura adequada, especialmente em áreas mais carentes do país, que agravam tanto a qualidade, quanto o acesso. Segundo o Censo Escolar de 2020, apenas 31% das escolas públicas brasileiras possuem bibliotecas, e mais de 20% delas ainda não tem acesso à Internet (Brasil, 2021a). A valorização e formação contínua de professores, com raras exceções, ainda são insuficientes, uma vez que os programas de atualização ainda são escassos ou, muitas vezes, não acompanham as mudanças pedagógicas mais modernas.

Em 2021, o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) médio para o Ensino Médio no Brasil foi de 4,4 em uma escala de 0 a 10 (Brasil, 2022 a). Isso indica que ainda há muito a ser feito para melhorar a qualidade da educação antes do ingresso no ensino superior.

E conhecer os fatores anteriores ao ingresso dos alunos no ensino superior, possibilitará enfrentar outro desafio, que é o da discussão profunda sobre a personalização ou a hiper personalização no ensino, tão necessária e urgente. Isso permitirá que as diferentes bagagens culturais e a diversidade dos alunos estejam presentes em seus processos de integração acadêmica e social durante toda a jornada, possibilitando melhores experiências de aprendizado e abordagens mais centradas nas reais necessidades daquele estudante.

 

Revista Educação: Aprendizagem por projetos é caminho para preparar os jovens no mercado de trabalho

 

Mônica Bulger, premiada pesquisadora e especialista em educação e tecnologia, em seu artigo de 2016, apresenta estudos e reflexões que ressoam ainda atuais ao abordar a importância de ampliar a perspectiva docente nessa discussão, dominada por empresas de tecnologia e seus algoritmos. Não existem soluções fáceis, todos sabemos. E essas são “As conversas que não estamos tendo.”, como refere o título de seu artigo. Nesse artigo a autora discorre sobre as tensões entre o que é prometido para a aprendizagem personalizada e as realidades práticas. Embora as promessas de aprendizagem personalizada pareçam positivas, a realidade é mais complexa. “Como um sistema de aprendizagem personalizada mede e prevê o sucesso quando não há acordo conceitual entre aqueles responsáveis pela educação?” questiona na conclusão de seu estudo (Bulger, 2016).

E esse aprofundamento de ideias e discussões que pavimentará um futuro acordo conceitual, só será possível com investimentos e capacitação constantes. É necessário investir em Escolas de Capacitação Docente, na constituição de uma universidade moderna e atualizada em práticas inovadoras de ensino-aprendizagem, como sala de aula invertida, aprendizagem baseada em problemas, projetos, estudo de casos ou, ainda, baseada em discussão entre pares, brilhantemente abordada no artigo “Why Peer Discussion Improves Student Performance on In-Class Concept Questions” publicado na conceituada revista Science (Smith et al., 2009). A centralidade no aluno deve ser uma realidade plena e natural. Programas remunerados e contínuos de capacitação devem ser um pilar estrutural de uma visão de futuro nas IES, combinando rigor acadêmico com realidades criativas que representem a realidade de nosso país.

Ao analisar o ensino a distância no Brasil e sua recente expansão, com um aumento de 443,5% nas matrículas entre 2009 e 2021 (Brasil, 2023), é de extrema importância assegurar a qualidade da formação dos alunos nessa modalidade. Esse crescimento pode ser visto como uma oportunidade para ampliar o acesso ao ensino superior e atender às necessidades dos estudantes que buscam alternativas mais flexíveis e acessíveis. No entanto, é importante também considerar dados como os do ENADE, que mostram uma menor proporção de estudantes EAD alcançando os conceitos 4 e 5 em comparação com os estudantes presenciais (Brasil, 2022).

 

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A ampliação do ensino a distância é bem-vinda, desde que mantenha o foco na excelência. Para isso, novamente chamo a atenção aos investimentos necessários para investir na capacitação de docentes e em infraestrutura tecnológica apropriada. Especialmente, é vital concentrar esforços em três aspectos: 1) o atendimento aos alunos, que ainda é uma fonte de insatisfação ao analisarmos áreas de melhoria; 2) a promoção de habilidades socioemocionais, tanto para facilitar a interação dos docentes com os estudantes quanto para prepará-los para a realidade do mercado de trabalho e; 3) ampliar o debate sobre como as instituições podem enfrentar as adversidades específicas dessa modalidade, considerando diferentes perspectivas e estando abertas a um diálogo construtivo sobre seus benefícios e desafios.

Em outra perspectiva, é necessário avançar na incorporação da educação para o desenvolvimento sustentável nos currículos do ensino superior, conforme estabelecido nas Metas de Desenvolvimento Sustentável da ONU (ONU, 2015), com o intuito de conscientizar os alunos sobre a importância da sustentabilidade e das questões ambientais para o futuro do planeta. Embora haja resistência por parte de alguns setores da sociedade que não veem esses temas como prioridades (Huckle e Wals, 2015), é fundamental que seja uma das principais preocupações das IES. Temos apenas um mundo para viver e é preciso preparar os alunos para os desafios do futuro, garantindo que eles tenham uma visão crítica sobre si e sobre o mundo, com responsabilidade social, ética e ambiental.

Também é urgente aprimorar os sistemas de avaliação e monitoramento em colaboração com órgãos externos e as próprias IES, tornando-os menos burocráticos, mais objetivos e eficientes, não sendo um fim em si mesmos, mas sim um meio para assegurar a qualidade e efetividade do ensino superior e fomentar a melhoria contínua das instituições. O maior obstáculo será construir novas abordagens que levem em consideração aspectos como: 1) a diversidade regional e as especificidades locais; 2) as diferenças nos públicos-alvo atendidos pelas IES; 3) o reconhecimento e valorização das características distintas das instituições; e 4) a flexibilidade para avaliar categorias administrativas distintas.

 

Leia: Revisitar a própria identidade é premissa para que as IES se redescubram

 

No entanto, o mais importante é que todas essas provocações precisam refletir em uma melhoria na qualidade de vida das pessoas. Todos esses esforços devem contribuir para melhorar a vida das pessoas no ambiente em que elas estão e sob o ponto de vista delas. A educação deve ser vista realmente como um instrumento de transformação social, com políticas públicas que elevem uma visão de futuro, capaz de aumentar as taxas de conclusão e reduzir as taxas de evasão.

A educação deve formar as pessoas para a vida, preparando-as para uma sociedade em constante mudança e ajudando-as a lidar com essas mudanças. Aprender a pensar é um desafio importante, que requer uma transformação de cultura na sociedade. Viver melhor não é apenas uma questão de ganhar mais dinheiro, mas também de ter uma visão mais crítica e ética sobre o mundo em que vivemos.

Melhorar os investimentos em infraestrutura, capacitação e valorização docente, adotar modernos métodos de ensino-aprendizagem e promover a transformação digital são medidas estruturantes, mas a causa raiz de tudo é a valorização da educação pela sociedade. Essa é nossa principal restrição a ser eliminada.

Educação não dá votos. Não elege governantes no curto prazo. Educação transformadora se faz ao longo de décadas e os votos são necessários para a próxima eleição.

 

Leia: Não parar, e inovar sempre

 

Não podemos esperar nem transferir toda a responsabilidade ao governo. Em minha perspectiva, a valorização da educação é uma responsabilidade compartilhada que deve envolver não apenas o governo e as instituições de ensino, mas também os meios de comunicação, empresas, famílias e líderes comunitários. A mídia desempenha um papel crucial na promoção da educação, enquanto as famílias influenciam a mentalidade das crianças e jovens. Os líderes comunitários atuam como catalisadores, incentivando atividades educacionais e parcerias. As empresas, por sua vez, retroalimentam todo o sistema.

É preciso haver um comprometimento da sociedade em geral com a educação, valorizando-a como uma ferramenta essencial para o desenvolvimento do país e a melhoria da qualidade de vida das pessoas. A educação não deve ser vista apenas como um meio para obter um emprego melhor ou ganhar mais dinheiro, mas sim como uma oportunidade de desenvolver habilidades, conhecimentos e competências necessárias para a vida em sociedade.

Reitero: educação de qualidade se constrói ao longo de décadas e a mentalidade da sociedade precisa mudar em relação à educação. Os esforços em educação podem não trazer resultados imediatos, mas a longo prazo, eles são a base para o crescimento e desenvolvimento sustentável do país. O reconhecimento da educação como um investimento a longo prazo, que trará benefícios não apenas para os indivíduos, mas também para o desenvolvimento sustentável do país (World Bank, 2018), deve ser um compromisso de todos os envolvidos no processo educacional.

Para alcançar um futuro mais promissor para o ensino superior no Brasil, é necessário um compromisso coletivo na construção de um ensino superior mais democrático, inovador e sustentável, tanto na modalidade presencial quanto no ensino a distância. Embora o tema seja vasto e complexo, com muito mais a ser explorado, estas são minhas principais perspectivas para a valorização da educação, o principal instrumento de transformação social que poderá construir um futuro melhor para a sociedade brasileira.

 

Referências bibliográficas:

 

BRASIL. Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Ibge). Desigualdades Sociais por Cor ou Raça no Brasil. 2ª Edição. Brasília, DF, 2021. Disponível em: <https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/25844-desigualdades-sociais-por-cor-ou-raca.html>. Acesso em: 30 mar. 2023.

Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Resultados Enade, Conceito Enade e IDD 2021. Brasília, DF, 2022. Disponível em: <https://download.inep.gov.br/enade/resultados/2021/apresentacao_resultados_finais.pdf>. Acesso em: 30 mar. 2023.

Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Sinopse dos indicadores educacionais compostos por: Taxa de Aprovação, SAEB e IDEB por escola e rede de ensino – 2021. Brasília, DF, 2022. Disponível em: <https://www.gov.br/inep/pt-br/areas-de-atuacao/pesquisas-estatisticas-e-indicadores/ideb/resultados>. Acesso em: 30 mar. 2023.

Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Microdados do Censo da Educação Superior – 2000 a 2021. Brasília, DF, 2023. Disponível em: <https://www.gov.br/inep/pt-br/acesso-a-informacao/dados-bertos/microdados/censo-da-educacao-superior>. Acesso em: 30 mar. 2023.

Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). Censo da Educação Básica 2020: notas estatísticas. Brasília, DF, 2021. Disponível em: <https://download.inep.gov.br/publicacoes/institucionais/estatisticas_e_indicadores/notas_estatisticas_censo_escolar_2020.pdf>. Acesso em: 30 mar. 2023.

BULGER, Monica. Personalized learning: The conversations we’re not having. Data and Society, v. 22, n. 1, p. 1-29, 2016.

HUCKLE, John; WALS, Arjen EJ. The UN Decade of Education for Sustainable Development: business as usual in the end. Environmental Education Research, v. 21, n. 3, p. 491-505, 2015.

ONU. Organização das Nações Unidas. Transforming our world: The 2030 agenda for sustainable development, 2015.  Disponível em: <https://sustainabledevelopment.un.org/content/documents/21252030%20Agenda%20for%20Sustainable%20Development%20web.pdf>. Acesso em: 30 mar. 2023.

SMITH, Michelle K. et al. Why peer discussion improves student performance on in-class concept questions. Science, v. 323, n. 5910, p. 122-124, 2009.

WORLD BANK. Rapport sur le développement dans le monde 2018: Apprendre pour réaliser la promesse de l’éducation. 2018.

Por: Glauson Mendes | 06/04/2023


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