Longe do conforto dos laboratórios gastronômicos, professor desafia os estudantes a cozinhar para quem não tem onde comer
No divã do mês de agosto, Karina Tomelin recebe o professor Marcelo Malta (foto: arquivo pessoal)
Antes de ser professor, Marcelo foi cozinheiro e empreendedor. Começou sua carreira nos anos 1990, ainda cursando administração, como sócio de um restaurante em São Paulo. Passou por cozinhas na Espanha e, mesmo com mais de uma década de experiência, decidiu ingressar na primeira turma do curso superior de gastronomia da capital paulista. “Foi a melhor decisão da minha vida”, conta.
Durante a graduação, pela maturidade e vivência prática, Marcelo estreitou laços com professores e coordenação, a ponto de ser frequentemente convidado a compartilhar suas experiências de gestão e prática em sala. Essa relação próxima foi o ponto de partida para a docência. Em 2002, ao se formar, foi trabalhar como chef em um restaurante no litoral paulista. Um ano e meio depois, recebeu um convite inesperado da coordenadora do curso para substituir o professor da disciplina de peixes e frutos-do-mar, sua especialidade.
Apesar do nervosismo inicial, Marcelo se preparou com dedicação e ministrou uma aula que foi muito bem recebida pelos estudantes, os quais solicitaram que ele permanecesse com a disciplina. Esse momento marcou o início de sua carreira como docente, de forma espontânea e orgânica, consolidando-se ao longo do tempo com pós-graduação, mestrado e dedicação integral à sala de aula, sem nunca deixar de lado a convicção de que o ensino de gastronomia não se limita às panelas. “Ela é uma ferramenta de inclusão, de transformação. Pode e deve servir à sociedade”.
O projeto Jantando na rua surgiu a partir de uma inquietação profunda do professor Marcelo Malta. Enquanto ensinava gastronomia em uma cozinha pedagógica bem equipada, ele se sentia desconfortável com o contraste entre a fartura dentro da sala de aula e a fome do lado de fora dos muros da universidade. Essa contradição o impulsionou a agir.
A ideia surgiu em 2010, quando Marcelo decidiu levar seus alunos para fora da sala de aula, para que vissem a realidade das pessoas em situação de rua, muitas vezes invisibilizadas pela correria do cotidiano. Assim nasceu o projeto, que não se limitava à entrega de comida, mas carregava um propósito maior: oferecer carinho, dignidade e presença. A metodologia do projeto é baseada na simplicidade, mas com forte impacto social:
1. Um prato simbólico e acessível: escolheu o baião de dois como prato principal, por ser gostoso, representativo da culinária brasileira, fácil de preparar em larga escala e nutritivo. A receita incluía arroz, feijão, proteína (como bacon e linguiça) e couve, oferecendo uma refeição completa e reconfortante.
2. Participação dos alunos: o preparo e a entrega eram feitos pelos estudantes. Esse envolvimento direto permitia que eles desenvolvessem empatia, senso de responsabilidade social e compreendessem a gastronomia como ferramenta de transformação.
3. Periodicidade e logística: a ação acontecia quinzenalmente ou mensalmente, com a produção de cerca de 400 porções. A distribuição era feita em locais de grande vulnerabilidade social, como a região do Pátio do Colégio, no centro de São Paulo.
4. Parcerias e doações: o projeto contou, ao longo do tempo, com o apoio de fornecedores e patrocinadores que doavam ingredientes, como arroz, feijão, bacon e linguiça. O restante era comprado com recursos próprios ou obtido por meio de vaquinhas organizadas pelos alunos.
5. Dimensão afetiva: mais do que entregar alimentos, o projeto oferecia escuta, respeito e reconhecimento àquelas pessoas. O cuidado estava nos detalhes: mesas com toalhas, a comida servida quente, o sorriso e o olho no olho.
Marcelo destaca que o projeto não era apenas uma atividade assistencial, mas uma ação formativa, um convite à sensibilização, à reflexão e à ação. E mesmo após 15 anos, ele afirma: “Ainda me emociono a cada vez que converso com alguém na rua. Isso ainda me toca profundamente”.
Na perspectiva de Marcelo, a universidade precisa formar para além da técnica. “Formar um bom profissional é importante, mas formar um bom cidadão é essencial”. Por isso, o “Jantando na rua” tornou-se uma extensão viva da sala de aula. Os alunos se chocam, se sensibilizam, se apaixonam. Percebem que a fome, muitas vezes invisível na pressa cotidiana, é real, urgente, presente. “A gente passa a enxergar o outro de verdade. E isso toca fundo”.
Hoje, com a curricularização da extensão, projetos como esse ganham novo fôlego, mas Marcelo enfatiza que sua existência não depende de obrigação institucional. “Isso nasce de uma inquietação, de um querer fazer”. E convida outros docentes a buscarem o seu próprio caminho de impacto social, ainda que comece pequeno.
Com o passar dos anos, o professor Marcelo Malta desenvolveu vínculos reais e profundos com muitas das pessoas que viviam em situação de rua e que encontravam, no Jantando na rua, mais do que uma refeição, uma dignidade, afeto e escuta.
Ele relata que, ao longo dos 8 a 10 anos em que manteve o projeto no mesmo local, em frente ao Pátio do Colégio, no centro de São Paulo, criou relações de confiança com os moradores. Quando o carro do projeto chegava, os grupos já se organizavam espontaneamente em filas separadas, uma para homens, outra para mulheres e crianças. Eles sabiam o que esperar: o tradicional baião de dois, sempre servido com carinho e atenção.
Essas relações se aprofundavam com o tempo. Marcelo lembra com carinho de uma senhora que sempre ia conversar com ele, e de um jovem chamado Vilson, que expressava o desejo de trabalhar em um restaurante. Marcelo se mobilizou, conseguiu uma vaga por meio de um amigo, comprou uniforme, organizou tudo, mas, depois de alguns dias, o rapaz voltou para a rua. “Eu tentei, me dediquei, gostei muito, mas não consigo. Estou muito tempo fora disso”, disse ele a Marcelo. Esse episódio revelou a complexidade dos caminhos de quem vive na rua: traumas, rotinas e dificuldades que não se resolvem apenas com oportunidades.
Marcelo nunca julgou essas decisões. Pelo contrário, sempre se mostrou sensível e respeitoso. Ele entendia que, por trás de cada rosto, havia uma história única marcada por perdas, invisibilidades, tentativas e resistências.
A relação era tão próxima que os próprios moradores cobravam quando algo saía do esperado. “Tá uma delícia, mas não é baião de dois. Cadê o queijo coalho?”, disse certa vez um deles. Essa crítica, feita com humor e confiança, mostra o quanto se sentiam parte do projeto, não eram meros beneficiários, mas pessoas com voz, gosto, preferências e memórias.
Marcelo resume com simplicidade, mas com profunda verdade: “O projeto é mais do que entregar comida. É dizer: você importa”.
O projeto Jantando na rua extrapola qualquer definição convencional de atividade de extensão. Ele é, na essência, uma prática pedagógica que toca profundamente a formação humana e cidadã dos estudantes.
Para o professor Marcelo Malta, a gastronomia é mais do que técnica: é uma poderosa ferramenta de inclusão e transformação social. Ele defende que o ensino superior não pode se restringir à formação prática e teórica, precisa também formar cidadãos atentos ao seu entorno, capazes de reconhecer desigualdades e se comprometer com a transformação social. O Jantando na rua encarna exatamente esse propósito.
Ao participarem do projeto, os estudantes são levados a uma experiência que confronta realidades. Eles saem da zona de conforto da cozinha pedagógica: limpa, segura, planejada, para encontrar o imprevisível das ruas, o invisível da cidade: a fome, a miséria, a exclusão. E isso provoca um choque. Muitos relatam não terem sequer percebido a dimensão da pobreza ao redor da faculdade até o momento em que se envolveram com o projeto. Como afirma Marcelo, “quando você sai com esse objetivo, com esse propósito, aí você enxerga aquela pessoa, você percebe o que está acontecendo ali” — um despertar que transforma não só a forma de ver o outro, mas também a si mesmo como cidadão.
Esse choque, no entanto, se transforma em reflexão — e, frequentemente, em mobilização. Muitos estudantes se encantam, se emocionam, passam a querer organizar os patrocínios, envolver suas famílias e empresas, buscar meios de manter o projeto vivo. A experiência gera empatia, senso de responsabilidade, pertencimento e propósito.
Além disso, Marcelo destaca o impacto para a própria instituição de ensino: projetos como esse fortalecem a missão educativa das universidades, ampliando seu alcance para além dos muros da academia. E, para ele, como professor, é a cereja do bolo: sentir que está contribuindo não apenas para formar bons profissionais, mas pessoas melhores, mais conscientes e comprometidas com o coletivo.
A fala de Marcelo reflete essa convicção: “A educação precisa se preocupar também com a formação cidadã. A gastronomia é do bem, ela pode transformar. Se eu consigo fazer isso, então estou cumprindo meu papel como educador”.
O professor Marcelo Malta, com sua prática sensível e engajada, nos oferece inspirações importantes para educadores que desejam ampliar o horizonte da sala de aula e formar cidadãos mais conscientes e empáticos. A partir da sua trajetória e da experiência com o projeto Jantando na Rua, algumas dicas podem ser extraídas:
1. Comece pelo que te inquieta. Grandes projetos nascem de pequenas indignações. Marcelo conta que sua motivação veio do incômodo de estar dentro de uma cozinha pedagógica enquanto, do lado de fora, havia fome. “Isso mexeu muito comigo”, diz ele. Pergunte-se: o que te incomoda? O que te mobiliza?
2. Use a sua área como ponte para o mundo. Você não precisa mudar de profissão ou de conteúdo. Marcelo levou a gastronomia às ruas. Outros podem levar a engenharia, o direito, a arte ou a contabilidade para contextos sociais reais. Todo conhecimento pode ser uma ferramenta de transformação.
3. Envolva os estudantes com propósito. Quando há sentido, o engajamento acontece. Marcelo relata que muitos estudantes se emocionam, se organizam para conseguir doações, querem participar novamente. “Muitos se apaixonam, falam: eu quero fazer isso toda vez”. A experiência os toca profundamente.
4. Não espere tudo da instituição. O apoio institucional é importante, mas não pode ser a única condição para agir. Como ele afirma: “Às vezes a gente fica achando que a instituição tem que dar tudo, mas tem coisa que parte da gente.” A docência cidadã começa com uma escolha pessoal.
5. Cultive vínculos e escuta. Os maiores impactos não vêm só do conteúdo, mas da relação que se estabelece. No projeto, o respeito pelos moradores de rua, o cuidado com o servir, o olho no olho, tudo isso cria pontes afetivas e educativas. Essa mesma escuta pode e deve estar na sala de aula.
Por fim, ele nos lembra que transformar a sala de aula em um espaço mais cidadão é um gesto de coragem e amor: “Muito mais do que um prato de comida, a gente leva carinho, leva amor. E isso transforma”.
Por: Karina Tomelin | 08/08/2025