Cientista fala sobre a desvalorização da carreira no Brasil

Dificuldades que mulheres enfrentam na ciência, diferenças entre ter PhD aqui e nos EUA e seus sonhos são destaques da entrevista com a pesquisadora de pós-doutorado, Larissa Ishikawa

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A brasileira Larissa L.W. Ishikawa é pesquisadora de pós-doutorado e trabalha no Departamento de Neurologia da Thomas Jefferson University, na Filadélfia, EUA. Imunologia celular e molecular são os focos de seus estudos. Ela sabe das dificuldades e falta de incentivo que mulheres cientistas enfrentam no Brasil, Estados Unidos e outros países. Tanto que destaca: “as atuais condições de trabalho oferecidas ainda dificultam muito a vida da pesquisadora mulher, principalmente em relação à maternidade”, afirma Ishikawa, que também é presidente da Jefferson Postdoctoral Association, um canal de apoio a bolsistas de pós-doutorado em treinamento e assuntos extracurriculares vinculada à universidade em que trabalha.

Leia também: Faltam pesquisadoras nas áreas de ciências e exatas. Entenda essa realidade desigual

Mais obstáculos

Já uma pesquisa do Cell Stem Cell com 541 instituições de 38 países da América do Norte e da Europa revela outra barreira: mesmo as mulheres sendo mais da metade das matriculadas em graduação e pós-graduação nas áreas de da ciência, tecnologia, engenharia e matemática, elas ainda são minorias em cargos de liderança.

Saindo da questão de gênero e focando nas diferenças de valorização da ciência no Brasil e EUA, a pesquisadora, que atua na área há mais de 10 anos, afirma: “o Brasil, definitivamente, não valoriza os profissionais que possuem o título de doutor (PhD) e o pós-doutorando, por exemplo, é considerado um estagiário que necessita de uma bolsa de estudos para realizar a sua pesquisa”.

Leia, a seguir, a entrevista exclusiva que Ishikawa concedeu à Ensino.

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Larissa Ishikawa sonha que a profissão de cientista seja reconhecida no Brasil (foto: reprodução)

Qual o seu trabalho atualmente, a sua função?

Sou pesquisadora de pós-doutorado e trabalho atualmente no Departamento de Neurologia da Thomas Jefferson University, na Filadélfia. Sou responsável por delinear e conduzir experimentos que visam o estudo de mecanismos imunológicos envolvidos na inflamação e destruição do sistema nervoso na esclerose múltipla, uma doença incapacitante progressiva que não tem cura. A ideia é que através do entendimento desses mecanismos, possamos desenvolver tratamentos mais específicos e mais eficazes, com menores efeitos colaterais.

Que faltam mulheres na ciência é um fato. Como os EUA lida com essa desigualdade de gênero na ciência? Há algum incentivo para diminuir esse problema?

Infelizmente, aqui nos EUA ainda existe muita desigualdade entre mulheres e homens, não somente na ciência. Existe sim uma falta de incentivo para que mais mulheres escolham essa profissão, pois as atuais condições de trabalho oferecidas ainda dificultam muito a vida da pesquisadora mulher, principalmente em relação à maternidade. Acredito que o movimento “black lives matter” (do inglês, vidas negras importam) abriu os olhos do mundo inteiro não somente para a enorme desigualdade racial que existe aqui, mas também para a desigualdade de gênero. Tenho visto um movimento crescente de grupos que lutam pelas minorias e isso parece estar se refletindo em uma maior representatividade dessas minorias em posições de poder. O maior exemplo é o fato de os EUA terem eleito a primeira vice-presidente mulher, afro-indiana e filha de imigrantes da história do país. E ela acredita na ciência.

Leia: Educação e pesquisa, binômio fundamental

Você já sofreu algum preconceito por ser mulher?

Felizmente, nunca sofri preconceito por ser mulher, mas acredito que isso se deva ao fato de que passei a maior parte da minha vida acadêmica trabalhando com mulheres incríveis, lideradas por uma pesquisadora apaixonada pela ciência. No entanto, pela primeira vez em minha vida, sofri preconceito por ser descendente de japoneses, uma vez que meus traços asiáticos foram considerados uma ameaça aqui nos EUA logo no começo da pandemia. Naquele exato momento em que a pessoa me olhou com medo e atravessou a rua, eu pude sentir a dor e o peso de quem sofre todos os dias o preconceito racial e/ou de gênero.

Enquanto valorização, qual a diferença de ser pesquisadora nos EUA e no Brasil (independente do gênero)?

Com certeza, existe uma diferença muito grande. O Brasil, definitivamente, não valoriza os profissionais que possuem o título de doutor (PhD) e o pós-doutorando, por exemplo, é considerado um estagiário que necessita de uma bolsa de estudos para realizar a sua pesquisa. Aqui nos EUA, o pós-doutorando é um funcionário contratado pelo pesquisador responsável pelo laboratório ou diretor de uma instituição de pesquisa ou empresa. Eles reconhecem que um cientista PhD é altamente qualificado e valorizam seu tempo de pesquisa de pós-doutorado como experiência de trabalho. No Brasil, exceto nos casos de concurso público para docente, muitas vezes eu quis “esconder” os meus títulos para que pudesse ter uma maior chance de contratação.

Como brasileira, quais são suas expectativas para o Brasil quando falamos de ciência?

Meu sonho seria que o cientista fosse reconhecido como profissão no Brasil e que houvesse mais vagas para esse tipo de profissional que não somente as vinculadas à docência. São anos de estudo e muita dedicação para, no fim, escutarmos: “mas você só estuda?”. Existe um peso e uma gravidade enorme nesta pergunta. A educação por si só não é valorizada no Brasil, e isso é muito triste. A minha real expectativa é que consigamos melhorar a educação básica e, com isso, ensinar as novas gerações a valorizar a ciência e os cientistas. Há algo de muito errado na nossa educação básica quando vemos informações falsas serem repassadas deliberadamente. Existe ainda a falta de conhecimento de como buscar a informação adequada e a conveniência de compartilhar uma ideia (que nem mesmo é a sua) com apenas um clique. Mas eu tenho a esperança de que, apesar de todo o caos gerado por causa desta pandemia, a população brasileira se torne um pouco mais consciente em relação à ciência de maneira geral e a todos os cientistas que quebraram recordes no desenvolvimento das vacinas contra a covid-19, por exemplo.

Esta entrevista contou com o apoio de Marisa Bilard.

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