Educação e pesquisa, binômio fundamental

Investir em ciência tem a ver com soberania, defende, nesta entrevista, o presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência, Ildeu de Castro Moreira

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Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) sempre foi uma combatente corajosa na história turbulenta da democracia no país. Foi criada em 1948, já como reação a uma política específica de São Paulo, que à época queria fechar uma instituição de pesquisa, mas tornou-se logo uma voz ativa no debate nacional sobre a ciência, o ambiente, as condições de vida, a educação e as liberdades civis.

A SBPC atuou fortemente na institucionalização da ciência aqui produzida e foi fundamental, por exemplo, para a criação de agências de fomento nacionais (como o CNPq e a Capes), na década de 1950, além de muitas das agências estaduais. Teve entre seus presidentes ninguém menos que Anísio Teixeira, um dos grandes nomes da educação brasileira.

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Ildeu: Estamos brigando contra o desmonte da ciência

Com um currículo importante como esse, a SBPC se vê agora a
uma volta às origens: defender a ciência e o conhecimento como ingredientes fundamentais da cidadania, o que não deveria parecer novidade, em pleno século 21.

“Enquanto outros países ampliam seus orçamentos para a pesquisa, nos últimos cinco anos estamos brigando contra o desmonte da ciência”,

diz o seu atual presidente, o cientista Ildeu de Castro Moreira, doutor em física pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde é professor do Instituto de Física e do programa de pós-graduação em história das ciências.

Com mais de 5.000 associados diretos além de 156 sociedades civis afiliadas, a SBPC está espalhada pelo território nacional. Seus congressos anuais se tornaram célebres, mas, em 2020, a entidade foi obrigada a diluir seu evento em encontros virtuais, ao longo dos últimos meses deste ano inesquecível. E foi em meio a esses encontros que Moreira concedeu a seguinte entrevista à Ensino Superior:

Leia: Iniciação científica gera alunos mais criativos e capacitados para o mercado

A SBPC sempre realizou eventos grandes, e suas posições eram aguardadas pela imprensa e pela sociedade. Como estão lidando com a pandemia?

É verdade. Sempre tivemos a tradição das reuniões anuais, que acontecem desde 1949, em uma cidade diferente do Brasil, com grande participação de público. Passaram mais de 30 mil pessoas em Campo Grande, por exemplo, recentemente. O deste ano seria em Natal, em julho, e fizemos uma semana no meio do ano, na primeira semana de setembro e depois teremos a sequência na primeira de outubro, novembro e dezembro. O congresso foi transformado em uma reunião virtual de cinco semanas. Estamos também fazendo a SPBC jovem para famílias, crianças e adolescentes, e atividades virtuais, experimentos em casa, e também a parte cultural. Vale a pena ver nosso site, tem muitas propostas interessantes para todos.

Como o senhor avalia a importância da sociedade na história recente do país?

A SBPC é interdisciplinar, e muitas das sociedades científicas, como a de Física e a de Química, foram gestadas lá dentro. Somos um guarda-chuva. Na década de 70, a instituição teve um papel significativo na redemocratização. Em 1977, nosso congresso chegou a ser proibido nas universidades federais, e por isso o encontro aconteceu na PUC. Foi atuante na Constituinte, e depois ajudou a criação de várias outras instituições. Sempre mantivemos esse papel de atuar junto ao Congresso, pressionando os governos e fazendo críticas construtivas. Somos apartidários, mas não apolíticos.

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“Desde sempre trabalhamos para melhorar a formação científica nas escolas”

E como vê um contexto em que a ciência aparece questionada e crescem correntes que negam evidências científicas, como a evolução, ou o movimento antivacina? É preciso mostrar sempre para a sociedade o valor da ciência?

O valor da ciência é a questão de fundo que está sempre presente. Se o seu celular está no bolso hoje, isso é resultado do progresso científico. Ao mesmo tempo todos os fármacos, os aparelhos hospitalares, os alimentos, a ciência perpassa a vida de cada cidadão. Isso é óbvio, mas é preciso ir além do aparente. Devemos discutir como cidadãos também sobre como a ciência pode ser usada para fins militares, ideológicos ou para fins econômicos localizados. Queremos uma ciência mais útil para todo mundo. A história da ciência tem seus dilemas, e isso é mais antigo do que a pandemia. Metade do recurso de pesquisa do mundo é para a pesquisa armamentista, para dar um exemplo.

Leia: Paulo Blikstein: pesquisas desenvolvidas nas universidades são vitais para o funcionamento da sociedade

Ou seja, não há como falar em ciência sem falar no papel da educação?

Não há dúvida. A educação é certamente uma questão crucial. Desde sempre trabalhamos para melhorar a formação científica nas escolas. A SPBC sempre se manifestou, e mesmo a BNCC incorporou apenas uma parcelazinha do que propomos, quando precisamos de uma revolução. As pessoas precisam ter uma percepção melhor do que é a ciência. Os estudantes podem fazer pesquisa, investigar, perceber o quanto a ciência pode proporcionar para o mundo, assim como também ver suas limitações. A escola brasileira falha muito, e não só no Brasil. Se as pessoas tivessem uma percepção melhor da ciência, não entrariam em tanta canoa furada de negacionismos.

Mas não é só isso. Tem setores que desconstroem resultados da pesquisa, como já fez a indústria do cigarro e agora como fazem no caso das mudanças climáticas. Isso não é conspiratório, é uma constatação. Da mesma forma, visões da religião e a ideologia entram em conflito. É o caso do criacionismo. A ciência tem uma resposta para a origem do mundo, não é preciso buscar uma reunião exterior. Isso não significa que a ciência nega a existência de Deus, até porque foge de seu âmbito. Às vezes, no âmbito da religião, surgem respostas que trazem mais segurança, o que é natural, mas isso é exagerado de tal modo que passa por cima do conhecimento científico. Essa não é a visão do papa, por exemplo.

Mas o senhor vê riscos importantes nesse negacionismo? Corremos o risco de um predomínio das visões não científicas de forma a interferir na vida social?

É difícil prever o futuro. Em geral, os cientistas erram, os artistas costumam ser mais sensíveis. Mas algumas semelhanças nos deixam antenados. A Alemanha no começo do século 20 era um dos países mais avançados do mundo, e gerou cientistas como Einstein e Planck. Foi derrotada na guerra, e continuou como um país de ciência avançada, que depois foi solapada pelo nazismo, negacionista em relação à ciência – embora a usassem na indústria armamentista. As teorias do Einstein foram detratadas, seus livros foram queimados, em um país que tinha grande avanço científico.

 Ou seja, não se trata apenas de ter ou não ter boa ciência. Os conflitos, as condições sociais de desigualdade, os extremismos geraram o nazismo, assim como surgem outras correntes de pensamento extremo e negacionista. É uma onda forte, e as redes sociais, possíveis pelo avanço da tecnologia, potencializaram a crítica à ciência.

Vivemos momento difícil de ascensão dessas visões, mas as pesquisas ainda apoiam e valorizam a ciência. Quando tiver vacina, a maioria das pessoas vai procurá-la. O mesmo princípio gerou a revolta da vacina, no início dos anos 1900, mas nos anos seguintes todos foram se vacinar, e o Brasil se transformou em um dos países com maior aceitação da vacinação no planeta.

Mas valorizar a ciência significa lutar e fazer pressão por mais recursos. Nesse sentido, estamos indo para trás, não?

Sim, infelizmente. Em 1995, a China tinha o mesmo PIB que o Brasil, como também a Coreia  do Sul. De lá para cá, o PIB per capita melhorou muito na Coreia do Sul, e na China cresceu espantosamente, já disputando com o dos Estados Unidos. Nas últimas décadas, eles investiram em educação, universidades, pesquisa, empresas privadas, e dispararam.

A revista Nature mostrou que a raiz do superpoder da China é a pesquisa.

No último século, todos os países que se desenvolveram, sem exceção, fizeram da ciência e educação um binômio fundamental. Os Estados Unidos investem 2,8% do PIB há muito tempo, e o Brasil parou em 1%. É verdade: uma das razões para isso é que os recursos que vêm da iniciativa privada são muito inferiores, o que tem a ver com ausência de políticas públicas de estímulo e com a mentalidade imediatista do empresariado.

Mas, no mundo inteiro, o principal financiador de pesquisa básica é o Estado. O impacto econômico é evidente. Temos bons exemplos, como a agricultura tropical, fruto da ciência, da Embrapa, das universidades. Havia até desconfiança se o pré-sal realmente existia, mas engenheiros e cientistas o encontraram e desenvolveram tecnologia para retirá-lo. Com retorno econômico gigantesco.

Assine a Revista Ensino Superior digital e leia a entrevista completa com Ildeu de Castro Moreira: https://sacola.pagseguro.uol.com.br/dad7ffa6-95e0-41d9-b1aa-1feb9db4ad8c .

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