Procura por pós-graduação latu sensu mantém crescimento mesmo na pandemia

Fortalecimento desse tipo de especialização ocorre há pelo menos quatro anos, destacam neste artigo, Rodrigo Capelato, do Semesp e Fernando Covac, da Expertise Educação

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Por Fernando Covac e Rodrigo Capelato*: O ensino superior privado é, sem dúvida, um dos setores mais afetados pela pandemia da Covid-19. A crise econômica que atingiu estudantes e suas famílias foi profunda, com perda de emprego e renda.

Somam-se aos problemas econômicos as dificuldades impostas em função do cancelamento das aulas presenciais. As instituições de ensino superior realizaram um esforço gigantesco para garantir a manutenção da estrutura e da qualidade do aprendizado oferecido em suas aulas, que passaram a ser ministradas de forma remota. Muitos estudantes, no entanto, tiveram restrições de acesso a equipamentos e conexão a internet satisfatórios, além das aulas práticas e laboratoriais que não puderam ser oferecidas.

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Todos esses fatores contribuíram para a elevação do número de alunos que desistiram ou trancaram matrículas nas instituições de ensino superior, além de afastar os novos alunos que ingressariam no segundo semestre.

Segundo pesquisa do Instituto Semesp, a taxa de evasão no mês de maio aumentou 14,2% em relação a 2019 e a de inadimplência subiu 51,7%. Outro estudo, da consultoria Expertise Educação, demonstrou que o interesse demonstrado via Google por processos seletivos para ingresso no ensino superior no segundo semestre caiu 71% em maio de 2020 em relação à média do mesmo período dos últimos cinco anos.

pós-graduação lato sensu
Foto: Shutterstock

Por outro lado, em meio a todo esse cenário difícil, uma oportunidade surge com o aumento da procura por pós-graduação lato sensu (especializações). Muitas instituições estão reportando aumento da procura por esse tipo de curso.

Uma boa parte da população está em casa e com tempo ocioso. A transformação do trabalho presencial em home office, a perda de emprego e a suspensão do contrato ou redução jornada de trabalho, bem como a impossibilidade de realizar as atividades profissionais para muito trabalhadores autônomos e informais, propiciaram a formação de um grupo potencial de alunos para cursos de especialização.

O receio do desemprego e a busca por recolocação, aliados ao novo formato de aulas online remotas, com aulas ao vivo e alta interação com professores e colegas, foram os gatilhos para que houvesse um aumento do interesse por esses cursos.

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Uma pesquisa realizada pelo Instituto Semesp em 2019, intitulada Cursos de Especialização Lato Sensu no Brasil, já demonstrava esse potencial antes mesmo da pandemia.

Ao contrário do que aconteceu na graduação, os cursos de especialização tiveram crescimento após o início da crise de 2015, tanto na modalidade presencial quanto EAD. No período de 2016 a 2019, o número de matrículas na pós-graduação lato sensu cresceu 74%. Na modalidade presencial, o crescimento foi de 44% entre os anos de 2016 e 2018, e, na modalidade EAD, foi de 124%.

Nos cursos presenciais, as áreas com maior procura são Educação, concentrando 32,2% dos alunos, seguida de Saúde e Bem-Estar Social (30,9%) e Ciências Sociais, Negócios e Direito (26,5%). Já nos cursos EAD, Educação também é a área com maior procura, respondendo por 37,5% das matrículas, porém em segundo vem Ciências Sociais, Negócios e Direito com 37,2% e, com percentual bem menor, Saúde vem em terceiro (13,8%).

Outro estudo, realizado pela consultoria Expertise Educação, denominado Tendências de oferta, matrícula e evasão no ensino superior. O que o Big Data e as redes sociais revelam neste momento de pandemia da Covid-19, demonstrou que o potencial dos cursos de especialização só aumentou após a pandemia. Por meio de dados extraídos do Google Trends e Adwords, o estudo revelou que o interesse por pós-graduação nas modalidades a distância e presencial aumentou significativamente nos meses de abril e maio em relação aos anos anteriores.

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Somente nos 10 primeiros dias de maio de 2020, o crescimento foi de 483% nas buscas por cursos de pós a distância em relação à média dos últimos cinco anos, e foi de 29% nos cursos presenciais, sendo que o volume de buscas por esta modalidade já era 370% maior.

Buscas por pós-graduação no Google

pós-graduacao
Fonte: Google Trends e Adwords em índice

Soma-se, portanto, o cenário no qual os alunos não podem acessar a especialização in loco, ao mesmo passo que a renda média do público que possui interesse pela modalidade caiu, criando as condições para que ensino a distância despontasse como um mercado extremamente promissor.

Os dados capturados pelas de redes sociais por meio de ferramentas de Big Data da Expertise Educação indicam também uma predominância de interações pelo assunto por mulheres (56%) e pessoas na faixa etária de 25-34 anos (62%), além de um crescente interesse por plataformas educacionais nacionais e internacionais, como o LIT, UDEMY e o Coursera.

Já a satisfação dos estudantes da modalidade assíncrona em 2020, principalmente após o início das políticas de isolamento social, superou 83% do público, sendo o melhor desempenho desde o início do monitoramento em janeiro de 2014.

Assim como na oferta de qualquer outro produto ou serviço, mesmo a pós-graduação lato sensu se desenhando como uma boa opção nesse momento, é fundamental que qualquer decisão seja apoiada em dados mercadológicos. Perguntas como o tamanho do mercado potencial, perfil do público-alvo, área de procura, preço, modelo a ser ofertado, composição dos custos, entre outras, precisam ser respondidas antes de qualquer definição.

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O problema é que existe pouca informação disponível para cursos de especialização, ainda mais para atender o momento atual marcado pela pandemia. Por serem menos regulados, a inexistência de dados oficiais é quase total. Ao contrário dos cursos de graduação ou mesmo dos programas de mestrado e doutorado, em que há informações acessíveis por meio do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) ou da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), no caso da pós-graduação lato sensu, não há quase nenhuma fonte de pesquisa.

No entanto, uma alternativa interessante e que pode ser utilizada de forma muito assertiva para aproveitar o aumento da demanda dos cursos de especialização são as análises de mercado por meio de Big Data.

É possível identificar o tamanho do mercado, o perfil socioeconômico do público-alvo, o desenho do melhor produto a ser ofertado, utilizando as séries históricas dos dados de buscas em plataformas como Google e discussões online em redes sociais (Twitter, Facebook e Instagram), sites, fóruns e blogs, levantadas por meio de ferramentas de business intelligence. Além de serem fontes inéditas de dados, essas ferramentas permitem uma análise mercadológica muito mais atualizada, retratando todas as mudanças provocadas pela pandemia da Covid-19.

Sem dúvida, a pós-graduação lato sensu é uma boa alternativa nesse momento de muitas incertezas e de preocupações sobre o futuro do ensino superior no Brasil, no entanto, é preciso estar resguardado com o máximo de informações e dados para poder extrair da melhor forma o seu potencial e atenuar os efeitos da crise atual.

*Fernando Covac, especialista em Marketing pela FIA/USP e consultor de Big Data da Expertise Educação.

*Rodrigo Capelato, diretor-executivo do Semesp, economista pela USP, doutorando pela Universidade Coimbra.

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