Executivos em formação: cresce a demanda das empresas por cursos corporativos

Com aumento na procura, escolas de nível superior se especializam na oferta por conteúdos personalizados para o mercado corporativo

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Eles estão de volta aos bancos escolares. Munidos com diplomas e certificações variadas em seus currículos, esses profissionais engravatados, que muitas vezes já ocupam elevados cargos, retornam aos estudos para aprimorar suas competências em uma área onde a inovação é sempre primordial. Estamos falando do ‘mercado corporativo’, segmento que cada vez mais demanda por otimização e aprimoramento, em parte, por ser um setor que está em contínua transformação e também devido às profundas mudanças advindas da era digital. Com expertise em negócios e know-how em educação, algumas instituições de ensino superior privadas identificaram esse nicho e partiram em busca desses novos clientes que vêm aumentando progressivamente ao longo da última década.

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Algumas escolas, principalmente as de ponta, investiram pesado e formataram grupos de trabalho dedicados à educação executiva. Com departamentos autônomos e equipes formadas por especialistas destacados nas mais diversas áreas de atuação, essas instituições de ensino afinaram o vínculo com a iniciativa público-privada e passaram a oferecer cursos e soluções sob medida.

Ou seja, diferentemente dos moldes dos núcleos de graduação e pós-graduação, o modelo aqui é único e totalmente personalizável, tanto em relação ao conteúdo quanto ao formato. Tudo depende, em boa parte, da vontade dos clientes, que são normalmente grandes empresas. Desta forma, as aulas, por vezes, são realizadas no campus da instituição de ensino e em outros casos no escritório da empresa. Já os conteúdos podem ser ministrados em turmas tradicionais ou ainda entregues em formato individualizado para cada aluno.

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Sala de aula do Insper: área de educação executiva atende mais de 40 empresas

Além disso, o próprio modelo de negócio também tem suas particularidades. Em alguns casos é a empresa que banca integralmente o curso. Em outros, ela desenvolve parcerias com as escolas para que seus funcionários façam a capacitação pagando do próprio bolso, porém, com descontos. Em suma, o que se pode constatar, com base na opinião dos especialistas consultados pela reportagem, é que os cursos voltados ao mercado corporativo oferecem uma nova e interessante fonte de receita para as instituições de ensino com um risco de inadimplência bastante reduzido.

Esta é uma ótima notícia para o setor educacional, ainda mais que a expectativa da economia para 2020 é positiva. Após a desastrosa queda de quase 7% do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2015 e 2016, o Brasil saiu do vermelho e, a passos lentos, vem recuperando o retrocesso. A estimativa do Banco Central é de consolidar o crescimento de 1,2% em 2019 e alcançar a marca de 2,2% para este ano. Ou seja, maior desenvolvimento representa aumento na oferta de trabalho e com isso mais empresas contratando serviços de capacitação.

Outro ponto que deve contribuir para impulsionar o setor é o entendimento cada vez mais comum dos empreendedores sobre a necessidade da atualização permanente dos seus colaboradores para que o negócio se mantenha competitivo e relevante. E mais do que isso: para que continue de portas abertas. Conforme pesquisa do Sebrae Sobrevivência das Empresas no Brasil, de 2016, quase a metade – isso sem considerar as microempresas individuais (MEI) – dos novos empreendimentos faliram antes mesmo de completar dois anos de atividades. E a segunda principal causa apontada pelo relatório, acredite, foi justamente a ausência de “capacitação dos funcionários”, fator que ficou atrás apenas de “falta de planejamento”.

“Como qualquer capital, o [capital] humano também se deprecia. As pessoas têm que se desenvolver o tempo todo. As organizações sofrem se isso não acontece”, ressalta André Nardy, COO da Saint Paul Escola de Negócios. A ausência desse aperfeiçoamento impacta diretamente a longevidade das organizações. Segundo o diretor operacional da escola, a maioria das empresas não tem mais a convicção de onde virá sua receita nos próximos cinco anos, em parte devido ao cenário de constantes mudanças, principalmente, tecnológicas. E é justamente aí que as instituições de ensino podem aliar sua experiência de formação para explorar este mercado ainda recente.

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Programas sob medida

Com 20 anos de atividades, a Saint Paul, localizada na capital paulista, sempre foi bastante próxima às empresas por ser uma escola de negócios. Entretanto, foi há cerca de uma década que decidiu entrar de vez no jogo e passou a oferecer o serviço de educação corporativa. Para isso, a instituição criou uma equipe completa. Na linha de frente, o primeiro contato com os clientes é realizado por um time de atendimento, formado por acadêmicos com experiência em negócios e ex-executivos de grandes instituições, que buscam identificar quais são as dificuldades ou, como diz Nardy, a “dor das organizações”. Ou seja, o que precisa ser modificado.

Após avançar essa fase é a vez do time comercial de entrega, com cerca de 300 professores que atuam também na pós-graduação, iniciar o desenho dos programas que serão executados. Temas como ‘valuation avançado’ e ‘accountability’, entre outros, são combinados para entregar a melhor solução à empresa contratante. Em média, todo o processo de produção e validação leva de dois a três meses. Já a duração dos cursos pode variar de um intensivo de dois dias até mesmo um MBA de 600 horas. Tudo depende da necessidade do cliente. Por fim, chega o momento de o conteúdo ser executado, o que pode ser feito na Saint Paul ou no ambiente da empresa. “Será onde o cliente preferir. A gente opina, mas sempre há uma discussão. Porém, isso não é um elemento tão importante”, avalia Nardy.

Já o Insper tem como política priorizar a realização dos seus programas de educação executiva no próprio campus. O instituto paulistano até mesmo criou, recentemente, um andar exclusivo para os alunos deste segmento. E a justificativa para isso, conforme Alessandra Yamamoto, coordenadora dos Cursos Customizados da Educação Executiva do Insper, é maximizar a experiência de aprendizagem. Com o ‘estudante-executivo’ afastado do ambiente de trabalho ele pode estar mais focado no conteúdo e, além disso, tem a oportunidade de vivenciar as experiências teóricas na prática nos laboratórios da escola de Engenharia, como já ocorreu em experimentos de prototipagem. Ainda assim, esta não é uma regra absoluta e parte dos conteúdos pode ser rodada na empresa.

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Demanda aquecida

A área de educação executiva do Insper deu um salto de crescimento: nos últimos três anos, dobrou de tamanho. Atualmente a instituição possui mais de 40 clientes, a maioria de grande porte, em seu portfólio. Com perfis de todas as áreas, a demanda por conteúdos também se tornou diversificada. Ainda assim, conforme Alessandra Yamamoto, a maior procura é por temas ligados a transformação digital, implantação de tecnologias voltadas ao negócio, gestão de colaboradores, inovação e empreendedorismo e desenvolvimento socioemocional. Apesar disso, o programa segue a orientação de sempre buscar a multidisciplinaridade dos temas. “Por mais que eu fale de inovação, é importante também direcionar o curso para áreas como a de liderança”, comenta Alessandra.

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Topo da carreira: ESPM criou o C-Level Academy mirando executivos do alto escalão interessados em ampliar suas perspectivas

Outro ponto importante da educação executiva é o seu modelo de negócio, que garante maior segurança financeira à instituição. Enquanto nos cursos de graduação e pós-graduação a receita advém quase que integralmente das mensalidades, onde existe o risco da inadimplência e evasão, aqui, na maior parte das vezes, é a empresa que arca com todos os custos. Ainda assim, existem outros formatos de negociação. Alessandra Yamamoto comenta que no Insper algumas empresas optam por financiar parte da capacitação de seus parceiros e distribuidores, havendo assim dois contratos distintos – o segundo diretamente com o aluno. Já em outros casos, as organizações, para evitar abandonos, adicionam cláusulas de reembolso em caso de desistência do colaborador.

Saindo da área de negócios e entrando no ramo da comunicação, a Escola Superior de Propaganda e Marketing, também com forte experiência em consultorias e educação corporativa, apostou no formato de convênios com empresas para capitalizar alguns de seus produtos. A ideia é permitir que, por meio de parcerias, seja possível angariar um grande número de alunos sem gerar custos adicionais para a instituição empregadora. Esse é o caso do Multicompany. Segundo o diretor de pós-graduação da ESPM, Tatsuo Iwata, esta categoria com diversos cursos – que não são personalizados – é oferecida exclusivamente aos funcionários de instituições conveniadas como forma de um benefício. Ou seja, a empresa não arca com as despesas, mas cria condições de seus funcionários realizarem a capacitação, pagando com seu próprio recurso.

Outro produto da ESPM, este aberto ao público, porém, exclusivo a um seleto perfil de pessoas, é o C-Level Academy. O curso é voltado a profissionais que estão no topo da carreira, como diretores e vice-presidentes, que desejam ampliar ainda mais suas perspectivas de negócios. Dividido em programas de curta e média duração, os encontros são presenciais e ocorrem no campus ESPM Itaim, em São Paulo, desenvolvido especialmente para o projeto. “Essas pessoas já fizeram MBA, viajaram o mundo e estão num momento solitário. Não vão voltar para sala de aula. Elas demandam encontros, networks, discussões de alto nível. Temos parcerias com a IBM, com o ITA, com a Tendências Consultoria para discutir o futuro e desenvolver novos cenários”, comenta.

Hackathons

O formato de parcerias também é utilizado pela Faculdade de Informática e Administração Paulista (Fiap) em seu setor de educação corporativa, o Fiap Corporate, porém, com algumas diferenças. Fundada em 1993, a instituição de ensino, desde seu início, seguiu a diretriz de trazer problemas reais para seus alunos e com isso sempre se manteve próxima do mercado. O que começou com sete agora abrange 37 empresas parceiras, que utilizam o ambiente acadêmico para promover hackathons com o intuito de encontrar soluções e, em alguns casos, realizar processos seletivos. “Às vezes a empresa quer contratar os melhores alunos. Então faz um hackathon com tema específico, o que muitas vezes é mais barato que um processo de seleção. O Santander, por exemplo, contratou quase 20 pessoas em um evento aqui”, conta Guilherme Pereira, diretor de Inovação da Fiap.

Além de angariar recursos com as maratonas, que são pagas pelas empresas, a Fiap também oferece treinamentos de forma presencial, digital e híbrida. Mais recentemente, passou a explorar os recursos de inteligência artificial para disponibilizar trilhas adaptativas de aprendizado. Ou seja, os cursos oferecidos às empresas se baseiam em desenvolvimento de competências e cada colaborador pode seguir sua própria trilha personalizada. No caso, ele pode receber, em seu smartphone, um infográfico, um vídeo ou ainda um podcast ao longo do dia.

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