Faltam pesquisadoras nas áreas de ciências e exatas. Entenda essa realidade desigual

Especialistas destacam a importância de políticas públicas para aumentar o número de mulheres em programas de pós-graduação nas áreas de ciências e exatas

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Na sala de aula, uma jovem conta ao professor sobre o sonho de cursar Biologia Marinha. Em resposta, ouve que nessa carreira é preciso ficar longos períodos isolada em bases de pesquisa e que o ambiente é machista, com muitos homens que poderão assediá-la ou estuprá-la. O relato, real, está registrado no estudo Elas nas Ciências, realizado pela Fundação Carlos Chagas (FCC), e mostra como as mulheres são afastadas das ciências, às vezes de maneira cruel, ainda na educação básica.

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Na maioria das vezes, porém, esses mecanismos são mais sutis. “Quando falamos em ciência com ‘C’ maiúsculo, por exemplo, pensamos nas exatas e engenharias, que são as áreas mais competitivas e com melhores remunerações. Essas também são as áreas com maior número de homens. As mulheres são desestimuladas a seguir por certos campos de estudo, e parte desse processo ocorre ainda no ensino fundamental”, explica Amélia Artes, pesquisadora da FCC. As meninas são menos chamadas para ir à lousa resolver questões de matemática, por exemplo, ainda que muitas vezes as escolhas dos professores ocorram de maneira inconsciente.

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Amélia Artes, pesquisadora da Fundação Carlos Chagas: as mulheres são desestimuladas a seguir certos campos de estudo ainda na infância

A pesquisa da FCC – baseada em questionários e entrevistas com professores e alunos de escolas paulistas – mostra que a pressão familiar também influencia as escolhas. “A sociedade ainda tem uma divisão clara de carreiras masculinas e femininas: o que acontece quando um menino diz aos pais que vai fazer Pedagogia? E quando a menina quer ser engenheira civil?”, exemplifica Amélia. “A boa notícia é que isso está mudando, mesmo que a passos curtos.”

Graduação

Mesmo após a escolha de uma graduação em ciências exatas, certas diferenças permanecem. Nas engenharias, por exemplo, há uma hierarquia: áreas como Mecatrônica, de maior prestígio, têm maioria masculina, enquanto há mais mulheres na Engenharia Química e de Produção.

A permanência das mulheres nessas áreas também apresenta desafios. “Num meio onde a maioria dos professores e colegas são homens, elas podem se sentir num lugar estranho. Aos 18 ou 20 anos, elas nem sempre estão prontas para enfrentar as piadas, o assédio e a desvalorização. Em geral, elas sentem que precisam se provar o tempo todo e estar muito acima da média”, explica Amélia. Apesar disso, o número de mulheres nos cursos de engenharia brasileiros dobrou, passando de cerca de 15% nos anos 1980 para 30% atualmente. Em várias universidades, as alunas criaram grupos para se apoiarem durante o curso.

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Pós-graduação

“O universo da ciência não é um mundo à parte”, explica Katemari Rosa, física e professora da Universidade Federal da Bahia (UFBA). “Ele também é influenciado pelos mecanismos de exclusão que existem na sociedade geral, como o machismo e o racismo.” Katemari lembra que há estudos que mostram, por exemplo, como mulheres e homens se referem de forma diferente ao próprio trabalho de pesquisa. Um estudo publicado no periódico científico britânico BMJ em 2019 analisou mais de 6 milhões de artigos e constatou que autores homens usam de forma mais frequente palavras como “único” e “inovador” para se referir aos próprios achados. E essa diferença, aparentemente irrelevante, tem um efeito concreto: a maior facilidade para o autoelogio influencia os leitores e rende um número maior de citações posteriores.

Amélia aponta que, entre os formandos de engenharias, as mulheres optam com maior frequência pela Academia. Ainda assim, segundo levantamento realizado pela iniciativa Open Box da Ciência a partir dos dados de 77,8 mil pesquisadores na plataforma Lattes, as mulheres representam apenas 26% dos doutorados na área e 31% nas ciências exatas e da terra.

A iniciativa também lançou uma plataforma (www.openciencia.com.br) para divulgar a trajetória e o trabalho das cientistas mulheres do Brasil. “Chegamos a algumas pesquisadoras que estão entre as que mais produzem no país e cujas pesquisas têm forte impacto em suas áreas”, explica Giulliana Bianconi, coordenadora do projeto. No site, 25 dessas mulheres também foram entrevistadas e contam suas histórias de vida e estudos. A ideia é que a base sirva de referência para pesquisadores e formadores de opinião, ajudando na visibilidade do trabalho dessas mulheres.

Outro desafio para muitas mulheres seguirem na pós-graduação é conciliar a carreira com a maternidade. “A idade média dos pós-graduandos coincide com o momento em que a maternidade costuma estar presente na vida das mulheres, mas isso não deveria tornar a trajetória delas mais difícil. Afinal, é uma condição de sobrevivência da humanidade e função tanto de homens quanto de mulheres”, diz Amélia.

Aos poucos, os órgãos de fomento à pesquisa têm instituído licenças e ajustado os indicadores de produtividade para não penalizar as pesquisadoras que se tornam mães. O Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), por exemplo, decidiu em 2019 incluir períodos de licença-maternidade e paternidade no currículo Lattes, após um pedido assinado por cientistas mulheres.

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Iniciativas

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Foto: Shutterstock

Tão importante quanto isso, para Amélia, é levantar essas discussões, para que os ambientes de pós-graduação não sejam vistos como prioritariamente masculinos. Hoje, já são discutidas medidas como a implementação de salas de brinquedos com monitores para cuidar das crianças durante conferências e congressos científicos. Medidas simples e baratas, que podem facilitar a participação de mulheres nesses espaços.

Katemari destaca a necessidade de iniciativas públicas para enfrentar os mecanismos de exclusão do mundo acadêmico. Se nada for feito, afirma a professora, o acesso continuará mais difícil para mulheres, pessoas negras e a população mais pobre. “Outro ponto importante é que editais e ações voltadas à equidade colocam o tema em evidência. Pesquisadores e gestores que antes não estavam atentos a essas questões passam a estar.”

Também é importante quebrar estereótipos sobre a figura dos cientistas e dar visibilidade ao trabalho das mulheres. Amélia conta que a FCC acompanhou uma série de projetos que visava aumentar o interesse das jovens por essas matérias. “O projeto Dandara do Cerrado, por exemplo, traz cientistas mulheres, muitas delas negras ou de origem humilde, para falar com alunos do ensino médio sobre suas carreiras. Em outro projeto, o Engenheiras de Borborema, as alunas ensinam linguagens de programação nas escolas de ensino médio.”

Outra iniciativa é a chamada Meninas nas Ciências Exatas, Engenharias e  Computação, do CNPq, que financia propostas cujo objetivo é aproximar as universidades das escolas de educação básica e mostrar que ciência não tem gênero. Hoje, são apoiados 78 projetos, espalhados por todos os estados brasileiros, que atendem a 350 escolas. As equipes de trabalho – formadas por professoras universitárias, graduandas e professoras de educação básica de disciplinas das exatas – levam atividades de ciência para alunas e alunos dos ensinos fundamental II e médio. Adriana Tonini, diretora de Engenharias, Ciências Exatas, Humanas e Sociais do CNPq, explica que as propostas aprovadas têm perfil “mão na massa”. Envolvem, por exemplo, atividades com kits de robótica e química. “Não basta colocar uma mulher cientista falando para meninas ou outras mulheres. É preciso ir além e mostrar, na prática, que todas e todos podem fazer ciência.”

E o que a ciência tem a ganhar com a participação de mais mulheres? Primeiramente, há um ganho qualitativo quando não se exclui metade da população de uma área de estudo. A diversidade de perspectivas é outro benefício: “por mais objetiva que seja, a ciência é construída a partir do olhar de quem a produz. Quanto mais múltiplo e diverso ele for, mais soluções e abordagens teremos para uma questão”, argumenta Giulliana Bianconi.

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