Os efeitos da cultura digital no ensino superior

Transformação tecnológica requer de gestores, professores e alunos habilidades para atuar em um mundo cada vez mais veloz e com novas aptidões

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A crescente busca por inovação, criatividade e empreendedorismo digital tem levado instituições de ensino superior a reformular seus programas de graduação para ensinar conteúdos de programação, design thinking, cultura digital, marketing digital e mindset ágil – e isso em todos os cursos. Alguns tópicos estão sendo trabalhados de forma transversal, enquanto outros ganharam disciplinas específicas. Seja como for, as movimentações indicam o desejo de colocar no mercado egressos que sejam “nativos digitais”, independentemente da idade ou da área de atuação.

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A Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), localizada em São Paulo, tem feito mudanças nesse sentido em suas grades curriculares. Esse processo começou em 2013, quando foi criado um plano-diretor acadêmico para a instituição, e segue desde então.

A novidade deste ano é o lançamento do programa ESPM Life Lab para novas turmas de graduação no Brasil. O objetivo é explorar 15 competências centrais, como o pensamento crítico, o autoaprendizado, o espírito empreendedor e a busca por aprimoramento pessoal e coletivo.

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ESPM, em São Paulo: desde 2013, a instituição vem fazendo mudanças para se adaptar ao cenário de transformação digital (foto: Gustavo Morita)

Na visão do vice-presidente acadêmico da ESPM, Alexandre Gracioso, todas as ocupações estão sob influência dessa nova realidade. “Todas as profissões são impactadas, principalmente aquelas que podem ser geridas pelos algoritmos e pela programação”, diz.

As carreiras que nasceram no contexto das transformações digitais estão, naturalmente, em vantagem. Cientista de dados, influenciadores digitais, especialistas em marketing digital e desenvolvedores de jogos são alguns exemplos desse grupo. Mas as mudanças também valorizaram carreiras relativamente antigas, como as de engenheiro de software, gerente de projetos e desenvolvedor web. Já as profissionais da área jurídica estão sofrendo um impacto negativo causado pela automatização de processos e o uso de sistemas computacionais cada vez mais integrados.

A Kroton, marca da holding Cogna com foco em educação superior, também está atenta ao perfil dos egressos que vão entrar no mercado nos próximos anos. Entre outras medidas, o grupo criou um conjunto de microcertificações para atestar ao mercado os conhecimentos e competências que seus alunos possuem no campo digital. Professores também têm acesso aos conteúdos, como explica a diretora de Planejamento e Desenvolvimento de Produto Acadêmico da Kroton, Thais de Jesus.

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Faltam profissionais

A necessidade de reformulação das grades curriculares também está relacionada à falta de profissionais aptos a conduzir os processos de transformação digital. Juliana Kahan, gerente de recrutamento e seleção da Infosys Brasil, afirma que a área de tecnologia é a que mais sofre com a carência de especialistas. No entanto, profissionais de praticamente todas as áreas estão buscando conhecimentos sobre o tema em função do aumento do número de projetos que envolvem, em maior ou menor grau, a tecnologia

“Quando comparamos o número de profissionais realmente conhecedores do assunto e as vagas disponíveis que requerem esta especialização, o gap é grande”, afirma Kahan. “Vivemos o impacto da falta de profissionais preparados para implementar a transformação digital em nossos clientes diariamente”, afirma.

No estudo Formação Educacional e Empregabilidade em TIC (Tecnologias de Informação e Comunicação), realizado pela Brasscom, o presidente executivo da empresa, Sergio Paulo Gallindo, analisa a situação do sistema educacional brasileiro e faz recomendações para aumentar o número de profissionais especializados na área até 2024.

Entre as sugestões estão a inserção de novas competências ou disciplinas nas grades eletivas, compatíveis com a demanda do setor TIC para transformação digital e o aumento de atratividade da área para bacharelado e tecnólogo.

Especialistas também sugerem maior aproximação das instituições de ensino e alunos com empresas, dentro de um ambiente monitorado, como já vem sendo adotado em alguns casos. Outra atitude importante é a aproximação entre a academia e o mundo corporativo para entender, quase que em tempo real, o feedback das companhias sobre a formação de seus alunos: “O que está faltando agora?”. Isto porque as mudanças estão cada vez mais velozes e essa retroalimentação pode ser um caminho promissor.

As pessoas terão sempre seu lugar

A valorização crescente da tecnologia não tira o protagonismo dos seres humanos na sociedade. Em todos os casos, avaliam os especialistas, as pessoas serão sempre essenciais. Na área de recursos humanos, por exemplo, será um profissional da área que realizará as entrevistas de candidatos cujos currículos foram filtrados na internet por robôs, enquanto no departamento jurídico será um especialista do direito que deliberará sobre as análises de programa de inteligência artificial.

Além disso, algumas competências, principalmente as socioemocionais, não podem ser automatizadas – pelo menos, não por enquanto. Isso explica por que as empresas mais inovadoras do mundo realizam esforços grandiosos para recrutar profissionais capazes de resolver problemas complexos e de desenvolver (e cultivar) boas interações sociais. Nos dias de hoje, essas habilidades são até mais valorizadas do que as aptidões até agora consideradas importantes para uma carreira bem-sucedida, como habilidades físicas e capacidade de memorizar conteúdo, indica um relatório do Fórum Econômico Mundial.

Nesse sentido, Thais de Jesus, da Kroton, é enfática: “Ocupações que demandam competências mais complexas, digitais e socioemocionais, que são mais difíceis de serem automatizadas, saem fortalecidas”, diz ela. “Estamos falando de ocupações que demandam resolução de problemas, criatividade e atendimento ao cliente, por exemplo”, cita.

Alexandre Gracioso concorda com o ponto de vista e lista os demais elementos que devem compor o processo de transformação do ensino. “O que não muda é o olhar humano e a análise complexa, e isso os robôs não nos substituíram ainda. Os profissionais agora precisam desenvolver mais a criatividade, conhecer um básico da área digital e desenvolver habilidades nas relações com a equipe”, completa.

Além de não substituir totalmente o humano, a tecnologia exige atenção dos governos de forma a investir em todos os níveis da educação e não deixar o Brasil ainda mais atrasado em relação à 4ª Revolução Industrial. Foi somente em 2018 que o Ministério da Educação conseguiu aprovar a Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que norteia o que será ensinado nas escolas brasileiras desde a educação infantil até o final do ensino médio. A presença das tecnologias é muito clara no documento, com o objetivo de que os estudantes as utilizem de maneira crítica e responsável ao longo da educação básica.

“Um dos pilares da BNCC é a cultura digital, uma vez que as tecnologias são transversais e estão imbicadas nas diferentes profissões’, afirma Cristiano Maciel, diretor do Conselho Nacional das Fundações de Apoio às Instituições de Ensino Superior e de Pesquisa Científica e Tecnológica (Confies).  Em geral, a proposta da Base é o desenvolvimento de competências que tendem a conduzir o estudante para uma formação mais integrada com o uso das tecnologias.  “Nesse sentido, exercitar o pensamento computacional desde a infância, para entender melhor como as máquinas processam as informações, é urgente. Competências como criatividade, inovação, gestão e empreendedorismo são fundamentais no século 21”, finaliza

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