Defasagem no aprendizado durante a pandemia

O grande desafio agora é trazer os alunos de voltas às aulas

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Foto: Envato Elements

Com a publicação do  Decreto Legislativo nº 6 que reconhece, para os fins do art. 65 da Lei Complementar nº 101, de 4 de maio de 2000, a ocorrência do estado de calamidade pública, nos termos da solicitação do Presidente da República encaminhada por meio da Mensagem nº 93, de 18 de março de 2020, e a decretação  pela Organização Mundial da Saúde do estado de pandemia,  as atividades  presenciais na educação foram suspensas e  o MEC (Ministério da Educação) o e conselhos estaduais permitiram a oferta do ensino remoto na educação básica e superior. 

Os reflexos na oferta de ensino remoto na educação básica são diferentes da oferta na educação superior. Assim como existem diferenças incontestáveis nas redes de ensino públicas e privadas.  Porém, tanto na educação básica, quanto na superior, o uso da tecnologia no processo de aprendizagem está entre os maiores ganhos para que as aulas não fossem suspensas durante a pandemia. Contudo, as escolas públicas, em sua grande maioria, não tinham a tecnologia necessária para a oferta do ensino remoto e a evasão foi significativa. O grande desafio agora é trazer os alunos de voltas às aulas.

Leia: Futuro do ensino: desafios para o segundo semestre

Ainda há o ponto de que a integração social por meio dos encontros presenciais são fundamentais para a troca de experiência. Assim, ressalta-se a necessidade de pensar na quantidade das atividades presenciais tanto para o ensino básico, quanto para o superior. Em entrevista ao Canal Livre último domingo (8), Claudia Costin, ex-diretora de educação do Banco Mundial, destacou o papel da escola não apenas no ensino, mas também na socialização de crianças e adolescentes, cujo papel da volta às aulas será ainda mais fundamental.

A presencialidade na educação básica ainda possui outras importâncias, como identificar se há casos de trabalho infantil, violência doméstica, exploração sexual de crianças e adolescentes, o que no ensino remoto é mais difícil.

Traumas pelo processo

De acordo com dados da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo divulgados em entrevista ao Jornal da Manhã, da Jovem Pan, os prejuízos da pandemia para o setor foram catastróficos. “Imagina a criança que, em 2019, estava no 3º ano do Ensino Fundamental. Fez um ano normal e, em 2020, foi para o 4º ano. Fizemos os esforços para que ela aprendesse algo e perdesse o mínimo possível, mas ela não conseguiu consolidar e não avançou em todos os conhecimentos. Ela avançou para o 5º ano sabendo menos do que em 2019. E essa avaliação foi feita CPF versus CPF, o que ela sabia versus o que ela sabe pessoalmente”, explicou o secretário da pasta, Rossieli Soares.

Rossieli ainda ressaltou que do 5º para o 6º ano acontece uma das transições mais importantes da vida escolar. “Já é complexo sem pandemia. Por isso é importante voltar ainda neste 2º semestre”.

Outro grande desafio, que terá que contar com a orientação de psicólogos e capacitação de professores, é o acolhimento dos alunos que vivenciaram a morte de familiares e amigos em função da pandemia. Sem dúvida, um assunto difícil que precisará de preparo para ser enfrentado e ajudar os estudantes.  

Ensino Superior

Diferentemente da educação básica, que teve uma maior dificuldade na oferta do ensino remoto, na educação superior foi a falta da oferta de disciplinas práticas presenciais, sobretudo nos cursos vinculados à área de saúde. As instituições de ensino superior (IES) reordenaram o calendário letivo até que fosse permitida a oferta presencial das disciplinas práticas. A experiência do ensino remoto e a oferta de disciplinas a distância nos cursos presenciais, com as alterações dos projetos pedagógicos dos cursos, é um ganho que se projetará também a partir do ano letivo de 2022.

Pobreza menstrual

Não menos importante e pouco divulgado é a pobreza menstrual, expressão utilizada para denominar a falta de acesso a produtos de higiene menstrual como absorvente, coletor menstrual, papel higiênico, sabonete e água. A ONU (Organização das Nações Unidas) estima que uma entre 10 meninas no mundo sofrem com o impacto da pobreza menstrual na vida escolar.

No Brasil, estima-se que esse número seja uma em quatro. Em 2014, a ONU reconheceu o direito à higiene menstrual como uma questão de direito humano e à saúde pública. Ou seja, a pobreza menstrual é causa de evasão escolar e precisa ser enfrentado pelos governos como política pública, encarando a higiene menstrual como direito humano e saúde pública.

No estrado de São Paulo, por exemplo, foi publicado no Diário Oficial o decreto que estabelece o programa Dignidade Íntima, no âmbito da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo. Com a publicação, fica garantido o uso dos recursos do Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE-SP), estabelecido pela Lei Nº 17.149, de 13 de setembro de 2019, para compra e distribuição gratuita de absorventes para estudantes da rede estadual.

O programa Dignidade Íntima prevê investimento de mais de R$ 30 milhões para compra de itens de higiene menstrual, com o objetivo de beneficiar principalmente estudantes em situação de vulnerabilidade econômica e social. Outras inciativas de governos e também da iniciativa privada estão ocorrendo.

Como se vê os desafios são grandes, mas é inquestionavelmente que a educação é uma atividade essencial e toda experiência vivida na pandemia deve ser avaliada e aplicada no que de melhor foi realizado.

José Roberto Covac é colunista da Plataforma Ensino Superior, sócio da Covac Sociedade de Advogados, sócio da Expertise Educação e diretor jurídico do Semesp

Leia também:

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