Mulheres cientistas narram os desafios que já enfrentaram na área

Andréa de Camargo, do IFSC da USP, revela que sofreu preconceito na Academia e Bluma Soares, da UFRJ, descreve sua dedicação no setor e preocupação com as mulheres de baixa renda

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Andréa Simone Stucchi de Camargo é professora do Instituto de Física de São Carlos (IFSC), da USP, e pesquisa materiais ópticos e a interação da radiação com a matéria a partir de técnicas espectroscópicas ópticas e de ressonância magnética nuclear de estado sólido. O interesse pelas ciências exatas veio ainda na infância, e a escolha pela graduação em Química foi natural. No mestrado, foi co-orientada por um professor da Física e se aproximou da área.

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Andréa precisou enfrentar desafios comuns às mulheres que seguem na Academia. Quando engravidou de seu primeiro filho, ela já era professora universitária, mas ouviu alguns comentários preconceituosos. Um colega questionou: “acabou de ser contratada e não sabe que já inventaram camisinha?”. Andréa rebate: “Ouvi esse tipo de coisa aos 34 anos, com trabalho estável e uma gravidez planejada – e mesmo que não fosse! Mas abstraí, não me deixei abalar”.

A notícia da gravidez veio junto com a da seleção para a Bolsa de estudos da Fundação Alexander von Humbolt, na Alemanha. Preocupada com a recepção da novidade, Andréa escreveu para a instituição. Além dos cumprimentos, foi informada de que teria mais três meses para concluir sua pesquisa e um adicional de 350 euros mensais pelo novo membro da família. No total, ela passou três anos naquele país, onde deu à luz seus dois filhos, e conta que o apoio da mãe, do marido e de uma babá foram essenciais nesse período. “Não foi fácil e nem é fácil. Faço dupla, tripla jornada. Exige muito trabalho e dedicação, mas amo cada parte da minha vida profissional e familiar.”

A pesquisadora recebeu o Prêmio L’Oréal Women in Science in Brazil, que busca dar visibilidade ao trabalho de mulheres, e conta que a iniciativa abriu mais portas em sua carreira. “Na época, ouvi brincadeiras de colegas da Física como ‘L´Oréal? Agora você participa de concursos de beleza?’, mas sempre respondi na brincadeira. O preconceito sempre existe, não só com mulheres, mas não passei por grandes dificuldades nesse sentido e tento não me apegar a esses comentários.”

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mulheres cientistas
Da esq. para a dir.: Andréa Camargo e Bluma Soares (foto

Bluma Soares:  fascínio pela ciência desde cedo e gratidão pelo apoio

Ao falar sobre sua trajetória como cientista, Bluma Guenther Soares deixa claro que não havia outro caminho possível: ela se apaixonou pela Química ainda no ginásio (atual ensino fundamental II) e insistiu em fazer o curso Científico no ensino médio. A época: anos 1960.

O lugar: Barra do Piraí, interior do estado do Rio de Janeiro. “O Científico era noturno e tinha muitos homens. Minha mãe queria que eu fizesse o  Normal, que formava professoras e era diurno. Consegui negociar e, no começo, fiz os dois ao mesmo tempo. Passados alguns meses, consegui ficar apenas no Científico.” Bluma, hoje professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), fez vestibular em 1970 e entrou na Escola Nacional de Química.

Ela é uma das pesquisadoras em destaque na plataforma digital do Open Box da Ciência. Seu pós-doutorado na Universidade de Liège (Bélgica) a levou para a área de Engenharia de Materiais e Metalúrgica e às pesquisas sobre materiais condutores.

A professora nunca se sentiu uma outsider no mundo acadêmico, já que a área de Química sempre teve uma presença razoável de mulheres. Ela reconhece, no entanto, que o acesso à carreira científica e a permanência podem ser bem mais complicados para outras pessoas. “Falo, por exemplo, de mulheres mais pobres. Sem uma estrutura de apoio, como creches ou bolsas de estudos, é muito mais difícil chegar à universidade e à pós-graduação.” Mãe de três filhos, Bluma reconhece que foi essencial ter o auxílio de outras mulheres, como empregadas domésticas.

Por fim, a professora ressalta a importância de iniciativas como o Open Box da Ciência e de projetos que aproximam a universidade das escolas. Apesar das desigualdades, aponta, o universo acadêmico e da ciência ainda é mais aberto e recompensador do que outros meios. “É preciso mostrar para os adolescentes que a universidade e a ciência são, sim, caminhos possíveis.”

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