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Aprendizagem telepresencial: experiência inovadora e disruptiva de alto impacto

A telepresença diferencia-se do aprendizado passivo, por permitir o diálogo imediato entre os participantes, como se estivessem em uma sala de aula física


Quando ouvimos o termo “telepresencial” possivelmente podemos relacionar com algo antigo devido a influência dos “telecursos” muito utilizados no Brasil, especialmente a partir da década de 1970. Mas, para entendermos melhor a ideia da aprendizagem telepresencial, é preciso ter a clareza dos conceitos que circulam, neste contexto. 

O termo telepresencial é integração do “tele” que vem da telemática + presencial, originária da palavra “presença”. Vale considerar que presença e telepresença, juridicamente, são iguais. Isso significa que a “telepresença” pode equivaler a “presença”. Quando falamos de telepresença em si, refere-se as tecnologias que possibilitam que as pessoas se “transportem” de um espaço físico para outro através de uma rede de telecomunicações, conseguindo vivenciar os lugares através de uma presença virtual.

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 Considerando que a temática em questão, tem estado na pauta de grandes universidades e centros de inovação ligados à educação superior não somente no Brasil, mas em todo mundo, vale compartilhar os elementos que torna a telepresencialidade uma prática pedagógica de alto impacto na aprendizagem dos estudantes. 

Não podemos esquecer do recente produto disponibilizado na área da saúde como os robôs de telepresença nos quais permitem que usuários remotos explorem livremente um espaço em que não estão, por meio de uma personificação física em um sistema bidirecional para explorar como melhorar a experiência social da telepresença robótica. Tem sido usado com um excelente recurso que inclui estudantes com doenças ou lesões graves que necessitam permanecer em casa ou no hospital, faltando às aulas. 

Já no contexto educacional regular podemos compreender a aprendizagem telepresencial como “(…) resultado de um processo de ensino e aprendizagem intencional que ocorre por meio da reunião de professores e estudantes, conectados de forma síncrona, em uma sala de aula virtual. “ (CAMARGO, DAROS, p.10. 2021)

telepresencial
Foto: reprodução

Sala Virtual

Destaca-se que a sala virtual (ou sala on-line) se refere especificamente ao recurso de encontro onde ocorrem as interações entre professores e estudantes de forma síncrona.  O Teams da Microsoft, Meet da Google, Zoom e o Colaboratte da Blackboard são exemplos de salas de aulas virtuais disponíveis no mercado. Quanto mais robusta em termos de possibilidades de uso a sala de aula virtual, melhores as condições de garantir aprendizagem neste contexto.

 O modelo pedagógico telepresencial caracterizado pela “presencial virtual” e interatividade entre os participantes é materializado por meio do uso de câmeras e monitores posicionados nas salas virtuais onde se encontram professores e os estudantes possibilitando que todos possam efetivar a comunicação interativa de modo telepresentes. 

Quando as instituições educativas consideram o mundo inteiro como sua sala de aula, os estudantes que não podem comparecer fisicamente podem “estar presentes “ de onde quer que estejam. 

Vale considerar que o emprego da telepresença é inclusive admitido pelos tribunais em todo Brasil como uma prática válida, segura e confiável cujo atos de leis exigem que as pessoas estejam presentes diante de um magistrado com a prática de depoimentos e interrogatórios, nas quais as participantes precisam ver e ouvir, umas às outras, podendo dialogar livremente, debater, questionar e responder, como se estivessem presentes no mesmo local.

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No contexto educacional não é diferente, visto que a telepresença diferencia-se do aprendizado passivo, por permitir o diálogo imediato entre os participantes, como se estivessem em uma sala de aula física. Isto significa que os estudantes podem participar a qualquer momento, para esclarecer dúvidas, compartilhar ideias, pontos de vista e efetuar questionamentos, “olho no olho”, de modo que o docente por visualizar o aluno e conferir suas ponderações em tempo real, podendo, inclusive, avaliar seu comportamento em aula e pode ser facilmente incorporada aos modelos pedagógicos em andamento.

Potencialidades da flexibilização da aprendizagem

O fato é que estudantes e professores de diferentes locais, conectados sincronamente em um ambiente virtual, é um modelo pedagógico cada vez mais utilizado devido a necessidade de flexibilização e novas possibilidades de aprender que surgem na atualidade tornando este modelo pedagógico capaz de gerar resultados positivos na aprendizagem pois criam condições de: 

  • Fomentar o engajamento em atividades educacionalmente inovadoras (por exemplo, integração acadêmica, aprendizagem ativa e colaborativa, interação com professores);
  • Gerar ganhos associados à frequência e participação dos estudantes;
  • Aumentar a satisfação geral com a experiência universitária;
  • Criar de comunidades de aprendizado por meio do aprendizado colaborativo;
  • Maior permanência e satisfação para estudantes de graduação por meio da flexibilização do acesso.
  • Otimizar o uso do Home estúdio por parte dos docentes;
  • Promover o pensamento mais complexo, uma visão de mundo mais complexa e uma maior abertura a ideias diferentes das próprias;
  • Favorecer o estabelecimento de redes de apoio acadêmico e social;
  • Reunir e integrar o corpo docente de maneiras mais significativas.

É importante considerar que a aprendizagem telepresencial foi a principal alternativa pedagógica utilizada para continuarmos a oferta do ensino brasileiro, em tempos de pandemia.  No entanto, este modo rico e peculiar de ensinar e aprender, possui uma série de especificidades que precisam ser atendidas para que a aprendizagem ocorra de forma sistematizada e organizada.

Estratégia de condução para atividades  telepresenciais

Para conduzir as atividades pedagógicas e gerar um alto impacto na aprendizagem é importante respeitar a dinamicidade deste ambiente de interação e para te ajudar elaborei uma sequência de condução didático pedagógica por meio de 04 passos fundamentais: a) Check In; b) Guia da aula; c) Aplicação de atividades; e d) Fechamento e avaliação.

1.Check In – É o momento inicial da atividade na qual o docente aguarda média 05 minutos para que todos os estudantes ingressem na sala de aula. É comum que ao iniciar, o estudante deixe o microfone aberto, tenha alguma dificuldade de abrir a câmera ou mesmo alguma questão em relação a conectividade. 

Como aplicar: Deixar um tempo para que os estudantes ingressem e sintam-se confortáveis é muito importante. Nesta fase, também é recomendável iniciar com um bate papo informal, questionando sobre os acontecimentos da semana, como sentem-se ou mesmo outro assunto de interesse da turma. A recomendação é manter um estado de escuta visto que a aprendizagem perpassa pelo estabelecimento de vínculos.

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2.Guia da aula – Com os minutos iniciais para o ingresso dos estudantes, o docente deve apresentar as atividades que foram planejadas para aquela aula. A ideia é tecer os combinados de aprendizagem e alinhar as expectativas em relação às atividades que comporão a agenda do dia. Conceba este momento como um espaço e estrutura para as pessoas se alinharem em torno de um objetivo compartilhado. 

Como aplicar:  É fundamental iniciar com “contrato de aprendizagem”, ou seja, a definição das normas e regras que nortearão a atividade formalmente estabelecidas.   Esta etapa é importante pois ao antecipar os principais pontos da aula, os estudantes tendem a permanecer em estado de atenção para que consigam acompanhar todas as atividades previstas.

3. Aplicação de atividades – Com o check in e guia da aula apresentado, cabe o docente conduzir as atividades conforme o planejado. É fundamental que varie os recursos e estratégias, pois com tantas possibilidades disponíveis, não devemos ofertar apenas a aula expositiva, afinal a organização e estruturação deve estar ancorado na possibilidade de combinatividade e diferentes formas de composição qualificando a interação com os estudantes.

Como aplicar:  É importante que o docente sempre priorize as atividades que possam ser evidenciadas.  Vale destacar a importância da problematização e do levantamento de conhecimentos prévios para que o docente possa compreender o que os estudantes já conhecem (ou não) sobre o tema ou exploração que será realizada. Uma sugestão é aplicar a estratégia SQA, que é a Sigla para o que já Sei (S), Quero saber (Q) e o que já Aprendi (A). Trata-se de uma prática poderosa para que os docentes possam entender em que ponto seus estudantes se encontram antes de iniciar uma atividade ou percurso temático, além de ajudar os estudantes a perceberem suas próprias evoluções.

4.Consolidação e avaliação – Com a sequência didática aplicada, o docente deve fazer o fechamento da atividade consolidando o processo de aprendizagem. Além disso, os ciclos de feedback em ambientes digitais, podem ocorrer de modo mais ágil e personalizados – (por aluno, por aula, por ambiente virtual de aprendizagem, trabalho individual ou em grupo, etc.). Recomenda-se ainda que o professor consulte os estudantes sobre suas percepções em relação a sequência didática. 

Como aplicar: Para estimular os estudantes a compartilharem seu feedback, pode-se apresentar frases como “Que bom, Que pena e Que tal? ” ou a prática de recuperação que consiste em alguma atividade que resgate de um conhecimento da memória de longo prazo e trazê-lo para a chamada memória de trabalho. Para este momento de fechamento recomendo a utilização do Bilhete de saída. Trata-se de uma estratégia 

adotada no encerramento de uma aula ou atividade, usada para verificar como os estudantes receberam a proposta e o que conseguiram aprender com aquela prática. Inclusive com uso de emojis para falar o que acharam da aula, como se sentiram com essa prática. Para os estudantes veteranos pode-se fazer algo mais reflexivo, mas sempre respondendo a uma pergunta simples. A ideia é que o bilhete ajude o professor a ver o que deu certo ou não, quais tipos de aulas estão funcionando e o que pode ser feito na sequência.

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O que torna a Telepresencialidade uma prática pedagógica de alto impacto? Conecta as pessoas! 

A Telepresencialidade reúne estudantes, professores, gestores, comunidade, palestrantes de todos os setores, disciplinas e localização geográfica para conectar, compartilhar ideias e resultados e aprender uns com os outros. Desta forma os estudantes podem trabalhar juntos pessoalmente e virtualmente, além de favorecer o trabalho em equipe e a possibilidade de ampliação do networking entre professores e estudantes localizados em diferentes  regiões.

Amplia comunicabilidade 

A Telepresencialidade inicialmente, melhora a comunicação, pois pode -se observar maior participação (escrita) além da comunicação não -verbal dos participantes. Além disso, aumenta a produtividade reduzindo a interação via e-mail.  Os professores e estudantes podem realizar cursos de formação à distância em formato on-line, mas com a telepresença do instrutor que conduz as atividades do curso de formação observando e interagindo com os demais participantes do curso.

Permite o aprendizado colaborativo

A flexibilização e a facilidade de reunir pessoas de diferentes lugares para compartilhar o aprendizado de experiências bem-sucedidas e malsucedidas para aprofundar os conhecimentos geram crescimento coletivo. Pode se usar para grupos de estudos, debates, meetups, reuniões de alinhamento, com ou sem a supervisão docente.

Acelera o progresso em direção ao impacto em escala

Um dos maiores ganhos é atender os desafios da escalabilidade. Vale destacar a importância de ofertar um aprendizado de ciclo rápido, ou seja, medir os resultados para entender o que funciona para quem e se atende as principais partes interessadas, gerando uma nova experiência interativa e imersiva nas salas de aula e enriquecendo a oferta de modelos de ensino flexíveis nos programas acadêmicos.

Independente do modelo inserido, destaco que são as decisões que tomamos enquanto os estudantes estão aprendendo é que fazem a diferença no processo de aprendizagem, por isso a telepresencialidde como alternativa pedagógica precisa oportunizar um aprendizado ativo para alcançar uma experiência enriquecedora para os estudantes. 

          Temas como gestão da sala de aula virtual, descanso ocular, atividades sensoriais, ergonomia, gestão do trabalho em grupo, estratégias e recursos metodológicos variadas e roteiros de aprendizagem são os principais elementos que devem estar presentes no aprendizado telepresencial. 

            Ao fornecer estratégias alternativas, ajudamos a trabalhar com outros para avançar juntos na aprendizagem, enquanto avaliamos formativamente nosso impacto, neste contexto a inserção da telepresencialidade tem sido uma alternativa com alto grau de impacto positivo no aprendizado dos estudantes.

Convido professores e gestores a vivenciar a mudança na forma de ministrar seus cursos e incentivar a saída do modelo tradicional para transcender para um modelo de ensino-aprendizagem mais ativo e interativo e conectado, independente da modalidade. 

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Thuinie Daros

Thuínie é co-fundadora, consultora e palestrante na Téssera Educação e head de cursos híbridos e metodologias ativas na Unicesumar. Escreve mensalmente em sua coluna para Plataforma Ensino Superior.

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