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Formação Docente

O lugar do lúdico no ensino superior

A criatividade não está ligada a um momento mágico, ela significa trabalho, perseverança, inúmeras tentativas para se chegar a algum resultado. Ela rodeia a vida humana e os espaços que habitam sujeitos pensantes, incluindo o contexto universitário

Publicado em 07/05/2021

por Redação Ensino Superior

lúdico ensino superior "Entendemos que a criatividade e o lúdico são indispensáveis na aprendizagem e no desenvolvimento de qualquer indivíduo" (foto: Pexels)

lúdico ensino superior
“Entendemos que a criatividade e o lúdico são indispensáveis na aprendizagem e no desenvolvimento de qualquer indivíduo” (foto: Pexels)

Por Jonathan Aguiar*: Quando falamos em criatividade, algumas pessoas atribuem a um dom divino. Outras defendem a ideia que somente alguns indivíduos são criativos, e o potencial criador está intrinsicamente ligado à área da música, da arte, da dança e da tecnologia. Há também a defesa que a criatividade faz parte do universo da criança. No entanto, apesar dessas relações é importante destacar que o ato criador não é um dom ou algo exclusivo a algumas pessoas, pois a criatividade faz parte da vida humana e pode dar espaço ao lúdico no ensino superior.

Estudar e compreender a criatividade significa mergulhar em inúmeros conhecimentos e perspectivas, como históricas, filosóficas, sociológicas, psicológicas, psicanalíticas e educacionais. Igualmente a dimensão do lúdico é interdisciplinar e dialoga com o viver humano, até porque o lúdico segundo o educador Cipriano Luckesi está para além do uso de jogos, brincadeiras, brinquedos, atividades recreativas, mas entendido como um estado de consciência pleno e interno de cada indivíduo. Ou seja, o lúdico (ou ludicidade) é a maneira pela qual nos envolvemos, interagimos com inteireza naquilo que se faz.

O lúdico e o criativo é para todos

Dessa forma, entendemos que a criatividade e o lúdico são indispensáveis na aprendizagem e no desenvolvimento de qualquer indivíduo. Quando sujeitos ingressam no ensino superior (tanto na graduação, quanto na pós-graduação) se deparam com a ausência de criatividade e ludicidade no chão universitário. Em minha experiência como estudante e pesquisador já ouvi as seguintes narrativas: “Criatividade está na educação infantil com as crianças desenhando e pintando”, “Ser criativo é ser tecnológico e usar ferramentas digitais” e “Tá, aí… essa história de lúdico, brincar, criar, imaginar é pra criança, aqui na universidade não tem espaço. A gente trabalha com teoria, rigor científico […] se for falar sobre cortar papel, colorir, que seja em outro lugar”.

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Até aqui poderíamos inserir outras narrativas quando se pretende investigar o fenômeno do lúdico e da criatividade. É urgente problematizar e discutir a compreensão da criatividade e do lúdico no ensino superior, sobretudo como essas dimensões corroboram para a criação de um ambiente mais inclusivo, significativo e inovador.  

A respeito disso, o filme Os Croods, nos exemplifica que a espécie humana é criativa. Nesta animação, conta-se a história de uma família que vive em uma caverna e ao vê-la ser destruída tiveram que se aventurar em busca de uma nova moradia, desbravando o mundo e os desafios que apareciam na trajetória dos personagens.

Ressiginificando o conceito

A criatividade não está ligada a um momento mágico, ela significa trabalho, perseverança, inúmeras tentativas para se chegar a algum resultado. Todo o processo é fundamental para se alcançar algo novo, algo que podemos denominar como criativo. É importante mencionar que a criatividade rodeia a vida humana e os espaços que habitam sujeitos pensantes, dito isto, ela pode pertencer o contexto universitário. Pois não é somente o ambiente que promove o ato criador, contudo a ação de sujeitos decididos em acolher e viabilizar que indivíduos possam fazer escolhas, tomar decisões e se sentirem seguros no seu crescimento enquanto estudante e profissional.

Desse modo, entendemos que a criatividade humana cultiva processos de reelaborações, de associações cognitivas, de ressignificações, de soluções para além do uso de técnicas e tecnologias. Em outras palavras, a arte de criar, pressupõe a capacidade de tomar decisões, saber construir alternativas, ser crítico-reflexivo conforme o ambiente em que estamos imersos.

Logo, agir criativamente tem como ponto de partida ressignificar e se comunicar com as experiências que tivemos ao longo da vida. Uma frase emblemática consegue traduzir esta acepção: “Nada se cria, tudo se copia!”. No entanto, precisamos ter vivido, experimentado, para suscitar outras criações e ressignificações.  

Aplicando a criatividade nas universidades

Quando trazemos essas compreensões para os espaços universitários, rompemos com as falas reducionistas, descritas nos parágrafos iniciais deste texto acerca da criatividade, e, desse modo, começamos a desvendar que o ato criador permanece, mas, ocasionalmente por falta de entendimento é pouco expressado em sua totalidade. Mediante a isto, indagamos: como preparar profissionais para serem mais criativos? O lúdico facilita este processo de ensino e aprendizagem?

Acreditem pelo simples fato de professores e estudantes por terem conseguido ingressar a esfera universitária, podemos de modo particular dizer que são indivíduos criativos. Pois, ao longo da trajetória de cada sujeito tiveram que acumular experiências, conhecimentos e outros fazeres cotidianos que culminaram em aprendizagens. Afinal, quantos obstáculos, desafios e soluções percorridas. Já, os professores ao planejarem suas aulas e por assim criarem situações que promovem os diálogos, a cooperação, a troca de ideias, pode-se afirmar que certamente a criatividade faz parte desse espaço.   

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Por outro lado, a criatividade existe quando estudantes e professores, no trilhar da vida profissional e acadêmica estão sempre abertos para aprender sem abandonar a curiosidade deste processo. Visto que a arte de perguntar, de ouvir atentamente, de explorar as sensações humanas são imprescindíveis na construção da identidade de qualquer profissional. Se queremos promover conhecimentos criativos devemos nos permitir acertar, errar, reavaliar, indagar, observar, ouvir, falar, questionar, refletir e entre outras ações que se relacionam com a natureza humana na ampliação de aprendizagens.  

Ser lúdico no ensino superior

Sob outra perspectiva, aqueles que atuam no ensino superior possuem formações diversificadas e abrangentes, por se tratar de um contexto plural tanto na ótica das áreas do conhecimento, quanto do público. Ser criativo está para além do saber de uma única área, mas como este docente enxerga a diferença como potência de criação, na busca incansável de soluções. Desse jeito, encontramos uma saída para gestar a criatividade no chão universitário e que se desdobra na identidade deste futuro profissional.

Por último, retomamos a noção de lúdico que está intrínseco à essência humana, assim como criatividade. Para que um indivíduo seja mais criativo tanto no seu fazer universitário quanto profissional, ele precisa se envolver ludicamente. O que isto significa? Professores universitários devem propiciar que estudantes se envolvam plenamente nas respectivas atividades pedagógicas, teóricas e práticas, a propósito de alcançar aprendizagem e desenvolvimento.

Numa aula, num processo formativo lúdico, os participantes não percebem o tempo passar, interagem de tal maneira que aprender e ensinar ultrapassam o tempo cronológico. Utilizar jogos, brincadeiras, leituras, dinâmicas, e outros artifícios lúdicos podem gestar a presença da ludicidade, no entanto, somente fará sentido quando sujeitos se transportam para outros mundos, outras imaginações e criações. Dentro desse movimento, a criatividade é uma grande aliada para a existência do lúdico no ensino superior.

* Jonathan Aguiar é doutorando e mestre em educação pela UFRJ, pesquisador científico do LaPEADE-UFRJ e autor dos livros Educação, Lúdico e Favela e Os Excluídos podem Sonhar, Criar e Imaginar, ambos publicados pela Wak Editora

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