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Investimento e qualidade do ensino superior brasileiro são muito baixos, diz especialista da OCDE

Em entrevista exclusiva, diretor de educação e habilidades e acessor de políticas educacionais na OCDE, Andreas Schleicher, põe em xeque qualidade do ensino superior privado e aponta caminhos para o pós-pandemia

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Poucas pessoas têm uma visão tão completa sobre como funcionam os sistemas de ensino dos países como o estatístico alemão Andreas Schleicher. Um dos criadores do exame Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), ele hoje é diretor da área de educação e habilidades, e assessor especial de políticas educacionais da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Estudando profundamente a forma como os países enfrentam os desafios do ensino básico e do superior e traduzindo os avanços e retrocessos em números, Schleicher tornou-se uma referência para discutir os rumos que a educação vem tomando, em tempos tão incertos como será o do mundo pós-pandemia.

Andreas Schleicher_ OCDE ensino superior
“é muito importante, agora, que as pessoas estejam prontas a aprender ao longo de toda a vida, e sejam capacitadas para além da escolarização”, analisa Andreas Schleicher

Qual sua opinião sobre as tendências da educação superior no mundo? Para onde vai o ensino superior?

A educação terciária está se tornando o que a educação secundária era no século passado, oferecendo as bases para alguém ser bem-sucedido no mundo atual. Isso não significa apenas a universidade. Há muitas formas diferentes de aprendizado depois da escola regular. Mas eu realmente acredito que é muito importante, agora, que as pessoas estejam prontas a aprender ao longo de toda a vida, e sejam capacitadas para além da escolarização. 

Leia: Avaliando a qualidade da educação superior

Na década de 90, o Brasil iniciou sua expansão do acesso à universidade, com a participação do setor privado. Como consequência, o país possui um grande número de faculdades e universidades privadas. Como vencer o desafio de crescer com qualidade?

Eu compartilho a preocupação de muitos de que há uma variação na qualidade do ensino superior no Brasil. Muitas instituições de ensino brasileiras vendem aos jovens brasileiros um certificado de graduação, mas não oferecem boa educação, e isso é realmente um problema. Os jovens conseguem um papel que garante uma certificação, mas há muito pouca garantia de qualidade.

Existem países que conseguiram expandir fortemente a educação terciária com bom ensino, mas para isso é preciso uma forte estrutura regulatória com mecanismos de garantia de qualidade. Isso não se produz sozinho. A ação do governo é essencial. Ele não precisa prover educação terciária, mas precisa regular. Se você é um aluno, precisa estar seguro de que, se investe seu tempo e seu dinheiro, deve receber boa educação. Não acho que isso seja verdade no Brasil.

O Brasil gasta três vezes menos com educação básica que outros países da OCDE. No ensino superior, entretanto, o investimento governamental equivale ao gasto médio dos países da OCDE. Você acha que o Brasil deveria mudar sua estratégia de investimento?

Eu penso que o investimento em educação no Brasil está muito distorcido. Quando se trata de dinheiro público, é preciso que os recursos sejam destinados àqueles que necessitam, ou seja, aos alunos na escola básica. Nessa etapa, o Brasil investe muito pouco. Aqueles que sobrevivem ao sistema escolar brasileiro têm dificuldade de chegar à universidade.

Os brasileiros que vão para boas universidades públicas são os que vêm de famílias mais ricas, isso não é justo. A responsabilidade dos governos com a educação básica é muito mais importante, porque é lá que se geram as fundações: se você tem uma boa educação básica, você encontrará seu “caminho” até o ensino superior. Se não tem uma boa educação básica, nunca vai conquistar a passagem para a próxima etapa. No caso do Brasil, o baixo investimento nos anos iniciais é o grande problema, não o investimento na educação superior.

Os países têm abordagens diferentes para fornecer apoio financeiro direto para alunos do ensino superior. Em sua opinião, quais seriam as abordagens ideais para um país em desenvolvimento como o Brasil?

Em primeiro lugar, é importante que os governos tenham controle sobre o valor das mensalidades. Muitas instituições cobram mensalidades exorbitantes por poucos serviços prestados. Há monopólios e isso não é bom. É como acontece nos Estados Unidos; os preços estão loucos, em muitas instituições. É preciso garantir que as mensalidades correspondam ao valor que as universidades realmente oferecem. Para mim, essa é uma responsabilidade de governos, não deixar tudo para o mercado resolver.

Segundo, estou aberto para a existência de mensalidades na universidade. Quando tudo é pago pelo governo, muito poucas pessoas vão para a universidade. É o que vocês têm no Brasil. O governo paga pelos alunos das universidades públicas e os outros têm de se virar por si mesmos. Esse não é um bom sistema.

O melhor sistema é o governo garantir financiamento a todos que queiram ir para a universidade. Basicamente, nessa abordagem, você garante o empréstimo às pessoas para que possam pagar depois, na proporção de sua renda. Inglaterra, Nova Zelândia e Austrália têm bons sistemas.

Se você simplesmente oferece o dinheiro sem deixar claro que o empréstimo poderá ser pago apenas quando houver condições, muita gente não usará o recurso porque pensa que poderá não conseguir e se tornará um devedor, mas se você cria um sistema de crédito em que o governo dá o empréstimo e, mais à frente, quando começar a ganhar, passa a pagar, esse tipo de sistema é sustentável, escalável e gera os recursos de que você precisa.

Em um mundo em rápida mudança, você acha que as faculdades e universidades deveriam adaptar todas as suas estruturas curriculares para atender às necessidades dos alunos de hoje?

Um dos problemas que nós temos hoje é que faculdades são muito demoradas. Você tem de estudar por três ou quatro anos para conseguir uma graduação. No futuro, o ensino será mais modular. O que importa é que as pessoas se apropriem do que aprendem, como aprendem, onde aprendem, quando aprendem, no ambiente do trabalho, em institutos educacionais. Deve haver muito mais integração entre trabalho e aprendizado. No futuro, vai existir uma via de duas mãos entre educação e trabalho, com as instituições de ensino mais conectadas ao mundo do trabalho.

O risco de deixar para trás pessoas que não têm um forte background não é maior?

Eu acho o contrário: é menor.  Se você vem de uma grande desvantagem de background, mas é muito talentoso…

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