Educação

Colunista

Karina Tomelin

Educadora, psicóloga, pedagoga e mestre em educação

Como abordar as soft skills com os estudantes 

Docentes precisam ampliar o repertório sobre a necessidade das competências sociocomportamentais

Soft skills

No divã: Paulo Henrique Rodrigues, professor universitário

Paulo Henrique RodriguesMeu nome é Paulo, sou professor universitário e trabalho com a disciplina de comunicação. Dentro da minha instituição, temos como premissa o foco em habilidades sociocomportamentais. Há uma trilha institucional comum para todos os cursos que trabalham as chamadas soft skills. As disciplinas de comunicação, projeto de vida, gestão de pessoas, educação financeira, transformação digital, tecnologia da informação, empreendedorismo e formação de startup possuem uma baixa aderência dos nossos estudantes, pois estes acreditam que essas disciplinas não possuem sinergia com o curso que pretendem estudar. Embora expliquemos, junto com profissionais, que as ditas soft skills são o futuro do mercado de trabalho, os estudantes ainda não conseguem comprar essa ideia. Consegue me ajudar com técnicas ou meios para convencê-los sobre a importância deste tema? 

Uma frase: Quando a gente ensina, a gente continua a viver na pessoa ensinada” – Rubens Alves. 

 

Na teoria

 

Oi, Paulo. Obrigada por escrever e provocar o debate deste problema que não me parece ser novo, especialmente para professores de humanas, mas que se repete ecoando nas mentes mais utilitaristas. “Pra que aprender isto? Parece uma grande bobagem… ou não serve para nada” são retóricas comuns em um discurso focado no conteúdo de “alto desempenho aplicável a curto prazo” dos conhecimentos apreendidos na escola, ou seja, onde atualmente parece adequado investir tempo em  algo de retorno rápido ou visivelmente aplicável. 

Para  construir o debate contigo, compartilho uma história pessoal: quando iniciei na docência, tinha 19 anos de idade. Na época, cursava psicologia em uma universidade particular de Blumenau, em Santa Catarina.  Eu residia em uma cidade vizinha que estava buscando professores de filosofia para as dezenas de turmas de primeiros anos do ensino médio que estavam se iniciando. Provavelmente eu não era a pessoa mais qualificada para assumir a tarefa, mas os dois semestres de filosofia que eu havia cursado e o apoio encorajador da direção e de outros professores me motivaram a topar o desafio. 

Claramente foram muitas superações: além de ter que me aprofundar no estudo da filosofia, meus estudantes, em sua maioria, tinham a minha idade ou eram até mais velhos, o que obviamente era um agravante na minha tentativa de me legitimar enquanto autoridade docente. Mas acredito que a maior delas tenha sido tornar a filosofia necessária e relevante para aqueles jovens. Afinal, a ideia corrente de que o filósofo é uma figura excêntrica, com pensamentos esquisitos, pouco úteis e que mais confunde a mente dos outros era o que povoava o imaginário não só daqueles jovens, mas de muitos de nós ainda hoje. 

 

Docência no divã #10: Estratégias formativas para desenvolver competências docentes

 

Somado a isso, era bombardeada com questionamentos como: “para que serve a filosofia?”, “Como a filosofia pode me ajudar a conseguir um emprego, a  passar na universidade ou a aprender a dirigir?”, “Não seria melhor ter outras matérias ao invés de filosofia?”. Contudo, para conseguir responder a todas estas perguntas, eu mesma precisava saber as respostas… lembro de ter comprado o livro O mundo precisa de Filosofia na esperança de “convencer” meus estudantes da importância e uso diário da filosofia em suas vidas. E como foi? Bem, vou terminar a história depois. 

De onde vem nossa visão utilitarista da aprendizagem? Ou para que serve a escola e a universidade? Com certeza, não são perguntas fáceis nem breves de serem respondidas. Por muito tempo a escola, e a educação formal como um todo, esteve direcionada a cumprir um papel civilizatório, contribuindo para a “produção de sujeitos” dóceis, disciplinados e úteis à sociedade. 

Esta visão fez da escola tradicional referência na priorização da função instrucional e propedêutica do ensino, ou seja, com o propósito de fazer os alunos passarem por séries e etapas educacionais sucessivas até a formatura. Ela buscava dar à educação uma finalidade utilitarista ao focar em conteúdos e aprendizados que tinham uma serventia diária e trivial. Esta visão difere da perspectiva da formação por competências, que prioriza a formação integral e o foco não é a utilidade, mas a funcionalidade, ou seja, além de possuir um conhecimento, este deve se aplicar em diferentes contextos e problemas ao qual o estudante ou o futuro profissional estará inserido. 

 

Docência no divã #9: Profundidade e dialogicidade em materiais didáticos para EAD

 

Mas por que, em pleno século 21, ainda questionamos as competências de formação integral e tendemos a buscar uma pedagogia do “alto desempenho aplicável a curto prazo”? Por que os estudantes universitários não são facilmente convencidos da importância das soft skills como componente da sua formação profissional? 

Tenho algumas hipóteses para construir contigo. Saber não significa, necessariamente, compreender e aplicar. O fato, por exemplo, de eu saber da importância da atividade física e de uma rotina saudável para ter uma melhor qualidade de vida não garante que eu siga as recomendações, preconizando minha saúde a longo prazo. 

Além disso, vivemos uma crise do pensamento de tempo encurtado, um presentismo provocado por um analfabetismo do imaginário que faz com que tenhamos pensamentos mais curtos e imediatistas. Assim, a universidade e os professores vivem um cabo de guerra entre os propulsores do pensamento de curto prazo e os de longo prazo. Este cabo de guerra, proposto pelo filósofo Roman Krznaric, gira em torno de duas imagens. Uma que é nosso “cérebro de marshmallow” contra nosso “cérebro de noz”. 

A primeira imagem traduz uma experiência de 1960, do psicólogo Walter Mischel. Em seu estudo, conhecido como o Experimento do Marshmallow, ele colocou crianças em uma sala com um marshmallow. Elas eram instruídas a resistir a tentação de comer o doce durante os 10 minutos em que o pesquisador estivesse ausente. Se elas conseguissem, receberiam dois marshmallows quando ele retornasse. O estudo mostrou a capacidade das crianças de desenvolver um pensamento de longo prazo, sugerindo que, as que conseguissem, seriam mais bem-sucedidas por conta da autodisciplina e autocontrole exercidos. 

 

Docência no divã #8: Como motivar os estudantes na aprendizagem ativa

 

Por sua vez, o cérebro de noz faz referência aos nossos ancestrais, que há cerca de 12 mil anos, no início do período neolítico, resolveram não comer uma semente, mas plantá-la, demonstrando sua capacidade de pensar a longo prazo ou, como define o psicólogo Martin Seligman, de ser “Homos Prospectus“, ou seja, de ter a capacidade humana de prospectar o futuro, imaginar possibilidades e se esforçar em direção aos objetivos.  

Na sala de aula, tanto nós quanto nossos estudantes, sofremos a pressão dos propulsores de pensamento de curto prazo, que nos fazem enxergar um único marshmallow, nos tornando míopes para uma visão mais ampliada de futuros e sua relação com a aprendizagem, afinal, estamos preparando nossos estudantes para trabalhar em empresas e funções que ainda não existem, utilizar tecnologias que ainda não foram inventadas e a resolver problemas que ainda não conhecemos, o que desafia o nosso imaginário a caminhar por cenários incertos, velozes e imprevisíveis. 

 

Na sala de aula

 

Assim como eu precisava ampliar minha visão sobre a importância da filosofia para ajudar meus estudantes a compreender a sua importância, tanto em suas atividades cotidianas como nas futuras, nós, professores, precisamos ampliar nosso repertório sobre a necessidade das competências sociocomportamentais ou soft skills, afinal, na “nossa época”, elas não figuravam no currículo, tampouco conhecemos seus benefícios por experiência própria. 

O que sabemos é que o passado e a história dos pré-socráticos podem ser tão vagos e distantes quanto o futuro dos estudantes universitários e suas habilidades necessárias para viver em um mundo em que o trabalho humano mudará radicalmente.

Assim como a previsão do Fórum Econômico Mundial de que 85 milhões de empregos deixarão de existir e outros 97 milhões surgirão, há um consenso de que não há uma área, conhecimento, habilidade específica capazes de sustentar uma carreira de sucesso a longo prazo. Habilidades técnicas, tão requisitadas, estão sendo cada vez mais substituídas por tecnologias digitais. 

Empregadores demitem seus colaboradores por mau comportamento ou inabilidade social na resolução de problemas em equipe. O futuro está nas Human Skills, ou habilidades interpessoais e de liderança, incapazes de serem exercidas por uma inteligência ou tecnologia artificial. Desenvolvê-la  garantirá possibilidades de se adaptar às mudanças de novos cenários de trabalhabilidade. O Fórum ainda reforça a importância do desenvolvimento de habilidades sociais na educação básica, para que possam ser refinadas na universidade e ao longo da vida.

 

Docência no divã #7: Como criar experiências de aprendizagem integradas com as IAs

 

Pesquisas recentes têm destacado a importância das soft skills especialmente em um ambiente de constantes mudanças. Há um estudo de Succi e Canovi (2020) que corrobora com o cenário que você traduziu na sua universidade. Neste estudo, elas buscaram comparar as percepções dos estudantes e dos empregadores relativo à importância das competências interpessoais em diferentes países europeus. Os resultados mostraram que as empresas consideram as competências sociais mais importantes do que os estudantes. 

A solução, proposta pelo artigo, é que as IES trabalhem em conjunto com as empresas. Isto aumentaria a consciência dos estudantes sobre a importância das competências interpessoais, além de ampliar a responsabilidade individual na aquisição e desenvolvimento destas competências, já que elas precisam ser aprimoradas ao longo da nossa vida, ou seja, o diploma não é o fim para o desenvolvimento nem das hard nem das soft skills

 

Docência no divã #6: Como aproveitar as características individuais e coletivas dos estudantes?

 

Depois que eu li o livro Por que o mundo precisa de filosofia?, fiz duas coisas para sensibilizar os estudantes para a minha aula. A primeira foi mapear os temas cotidianos que envolviam seus sentimentos e preocupações diárias como: amor, trabalho, comunicação, liberdade e escolha, aproximando-os dos conceitos filosóficos. Depois, busquei formas de materializar a aprendizagem, por meio de produtos ou vivências, como uma que chamei de “vivência do esquisito”, que mobilizava os estudantes e vir vestidos fora do padrão da época ou estação do ano, para depois discutirmos conceitos como padrões morais e a ética das relações. 

Para terminar, vou deixar uma dica de leitura, inspirada, por coincidência, no Projeto Aristóteles do Google. Lançado em 2012, o projeto analisou dados de centenas de equipes do Google para identificar os fatores que contribuíam para o sucesso do grupo. Um dos resultados mais significativos foi a descoberta de que as competências interpessoais, ou soft skills, desempenhavam um papel crucial na eficácia das equipes, mais do que a combinação de habilidades técnicas individuais entre seus membros. 

O projeto indica a importância das competências interpessoais no local de trabalho, destacando que a eficácia da equipe não depende apenas do que as pessoas sabem ou de quão habilidosas são em suas funções específicas, mas também de como elas interagem e trabalham juntas. No livro Um novo jeito de trabalhar, você conhece mais sobre os bastidores do Google, com detalhes sobre os processos de recrutamento e seleção, as ferramentas de gestão e avaliação de pessoas, que pode te ajudar na construção de repertório com seus estudantes. Espero tê-lo ajudado.

 

Esse foi Paulo no divã, o próximo pode ser você. Envie seu relato para mim e participe das próximas colunas.

 

Referências 

 

Bock, Lazslo. Um Novo Jeito de Trabalhar: Como o Google se Tornou uma das Empresas mais Atraentes do Mundo. Editora Intrínseca, 2015.

Krznaric, R., X. de A. Borges, M. L. (2021). Como ser um bom ancestral: A arte de pensar o futuro num mundo imediatista. São Paulo: Zahar

Prado de Mendonça, Eduardo. (1988). O Mundo precisa de Filosofia. São Paulo: Agi

Succi, Chiara; Canovi, Magali. (2020). Soft Skills to Enhance Graduate Employability: Comparing Students and Employers’ Perceptions. Studies in Higher Education, 45 (9)

 

Karina Nones Tomelin

Educadora, psicóloga, pedagoga, mestre em Educação. Colunista na Revista Ensino Superior

 

Por: Karina Tomelin | 16/02/2024


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