Faculdade Zumbi dos Palmares na criação de negócios para negros

Fundada há 20 anos, essa instituição de 1.600 alunos também incentiva o estudo e compreensão histórica da opressão

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A criação da Faculdade Zumbi dos Palmares foi precedida de algumas iniciativas de um grupo de estudantes negros, que no final dos anos 1990 buscavam maneiras de criar ações afirmativas e políticas antirracistas. Reunidos na Escola de Sociologia e Política de São Paulo, e tendo em mãos que apenas 3% dos alunos da USP eram negros, resolveram montar um curso preparatório para o vestibular. Logo perceberam que os alunos tinham tido um curso médio medíocre. Durou apenas seis meses.

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Mais negros na universidade. Com esse slogan, os acadêmicos e profissionais liberais iniciaram um périplo por faculdades pedindo bolsas de estudo.

O suporte que deu ânimo ao grupo foi a Faculdade Metodista de Piracicaba, cuja igreja tem 11 faculdades para negros nos Estados Unidos. Mas, quando o número ultrapassou 1.000 inscritos, julgaram que tinham que tomar outra providência.

Zumbi dos Palmares
Integração, uma luta de várias gerações e que na Zumbi dos Palmares é trabalhada todos os dia

Foi a partir dessa luta, com iniciativas que visavam combater o racismo, que nasceu a Faculdade Zumbi dos Palmares, nome aclamado por unanimidade. Só que para montar a faculdade foi uma busca “de um catado aqui, outro acolá, mas com a Metodista dando todo o suporte”.

Aqui vale a referência a uma iniciativa mundial, que deu mais ânimo ainda a esse grupo: a Conferência de Durban, patrocinada pela ONU em 2001, na África do Sul, contra o racismo e insistindo na responsabilidade de todos. A preparação para esse evento no Brasil foi elogiada. Audiências públicas para colher informações, e envolvimento de comunidades negras, academia e governo. A deputada Benedita da Silva foi a presidente da comissão.

O então cônsul-geral do Brasil em São Francisco, J.A. Lundgren Alves, presente em Durban, escreveu depois um relato: “Sem pretender esgotar, nem de longe, a descrição das controvérsias e circunstâncias que quase levaram à inexistência de documentos finais em Durban, pode-se assinalar, por exemplo, sobre os temas das ‘medidas de prevenção, educação e proteção para erradicar o racismo’ e das ‘estratégias para se alcançar a igualdade plena’, que a expressão corrente ação afirmativa foi banida da Conferência, por mais que os movimentos negros – inclusive o brasileiro – e outros grupos organizados presentes ao evento a defendessem. E foi banida exatamente pelo país que a inventou, na linguagem e na prática: os Estados Unidos”. Outro batalhador nessa conferência foi o embaixador Gilberto Saboia.

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Propósito social

Um dos líderes desse movimento brasileiro que levou à criação da Faculdade Zumbi dos Palmares, e que também esteve em Durban, foi o advogado José Vicente, hoje reitor e mestre em administração e doutor em educação. No balanço que faz desses últimos 30 anos, tem orgulho da Zumbi dos Palmares e da criação das cotas para negros.

“O acerto dessa luta foi que hoje 51% dos estudantes nas universidades públicas são negros. E a USP, que tinha 3% de estudantes negros na época, possui em 2020, 18%”, diz José Vicente. “A convite do consulado americano, visitei a Harvard University, uma instituição fundada em 1867, e que tinha lá um prédio maravilhoso, com 30 mil negros, período em que foram formados os primeiros médicos negros.”

O reitor diz que, ao ver Harvard, ficou ensandecido. “Vislumbrei qual era o nosso caminho no Brasil”. Com um ticket médio de 380 reais, e prestes a completar 20 anos, a Zumbi dos Palmares tem 1.600 alunos, 80% negros das classes C2 e C3.

Faculdade Zumbi dos Palmares
José Vicente, reitor da Faculdade Zumbi dos Palmares: existe um mercado do racismo, em que os grupos de interesses de toda natureza lucram com ele

Qual a diferença entre um estudante negro se matricular numa faculdade particular qualquer ou na Zumbi? “Ele tem o sentido de pertencimento. Temos disciplinas que resgatam nossa história de exclusão social, racismo estrutural. O aluno tem capacidade para entender esses fatos historicamente e se tornar um protagonista. E tem ainda a questão do acolhimento; na Zumbi eles se sentem em casa.”

A Zumbi dos Palmares não sofreu com a restrição dos financiamentos estudantis. Tinha só 10% dos alunos pelo Fies. Batalhador das cotas para negros, José Vicente lembra que era comum dizerem que lugar de “negro é em escola de samba, pagode ou futebol. Foram anos difíceis, mas tivemos muitos aliados”.

Segundo o reitor, “a Zumbi dos Palmares tem como missão combater e excluir a desigualdade racial. Construir um caminho diferente, novo e alternativo para conduzir as questões do acesso do negro ao ensino superior, à educação em geral. Inspirar e desafiar governo e sociedade a recepcionar e encaminhar com propriedade e assertividade as medidas e políticas de resolução dessa grande questão nacional”.

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Mercado do racismo

Ele diz que “existe uma atitude equivocada de negação do racismo e seus impactos nas ações e práticas formativas e interativas, e também falta de segurança e convicção da sua emergência e do seu impacto danoso em todo o ecossistema da educação. Primeiro, porque tem vergonha do seu racismo. Segundo, porque não tem interesse em priorizar esse tema na agenda por conta do risco de perda de espaço de poder. E, terceiro, porque existe um mercado do racismo, em que os grupos de interesses de toda natureza lucram com ele. Combatê-lo exigiria compartilhar prerrogativas e privilégios e ambientes e espaços privativos de tranquilidade e conforto. E isso o grupo de interesses de poder não aceita”.

Em seu livro Discursos afirmativos, José Vicente demonstra como o discurso ajudou a formar cada momento da história. “O discurso continua sendo uma arma poderosa na mudança e transformação da sociedade, das ideias e do mundo, e que no final constrói, muda. É importante que a gente tenha compreensão disso e continue aprimorando o discurso para ajudar a fazer as mudanças que têm que ser feitas.”

Faculdade Zumbi dos Palmares ações
Raphael Vicente: como dizem que no Brasil não há racismo, fica difícil combater

Negação

A criação da Zumbi dos Palmares veio no bojo das ações afirmativas, buscando empoderar os negros, mostrar sua história de luta. “Desde 2000 já trabalhávamos junto a várias empresas com o objetivo de garantir a presença de mais negros nas organizações”, diz Raphael Vicente, coordenador de cursos. “Estamos iniciando a 17ª turma de estagiários no Bradesco.” Ele diz que não é uma faculdade só para negros (hoje são 80%), mas tem um simbolismo da marca, do logo, que faz a pessoa negra não ter dúvida de que é algo dele.

Raphael Vicente compara o racismo existente no Brasil e nos Estados Unidos. Embora lá os negros sejam 16% da população, já ocupam 9% de cargos de líderes, enquanto que no Brasil a população negra chega a 55% e ocupa só 4% dos cargos de chefia. “Entre nós, é mais difícil combater porque a priori dizem que não existe racismo, então o que fazer?”

Raphael Vicente é um batalhador pelos programas de inclusão, só assim os negros podem ascender na carreira. “A questão racial deveria ser ensinada desde o fundamental. Isso traria uma consciência e o progresso do negro no Brasil”, diz ele. Lembra que, até os anos 1990, alegava-se que não havia racismo no Brasil, mas desigualdade social. Isso impediu a luta por cotas e inclusão mais cedo.

Para 2021, a Zumbi abrirá bolsa de estudo de inglês online, patrocinado pelo Bradesco, e que prevê um acompanhamento individual para os 150 melhores estudantes. E para quem não for contemplado, haverá o Hello Zumbi, curso de inglês que custará 80 reais por mês para os alunos. Raphael Vicente lembra que a Zumbi é a única faculdade para negros na América Latina. E aqui vale outra comparação com os Estados Unidos, que têm 150 faculdades voltas para o público negro.

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