Naércio Aquino: as faculdades precisam diversificar a oferta e reduzir o preço

Em entrevista, o economista e educador do Insper e da USP Naércio Aquino Menezes Filho, fala sobre os efeitos da pandemia no ensino superior

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Economista com diploma e mestrado pela Universidade de São Paulo (USP) e Ph.D. pela University of London, há mais de duas décadas Naércio Aquino Menezes Filho se debruça sobre temas relativos à educação e preparação para o mercado de trabalho. Suas pesquisas tratam desde os efeitos de longo prazo da frequência na pré-escola até o impacto salarial da qualidade do curso universitário.

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Mesmo em meio à pandemia, segue coordenando três projetos de pesquisa, com trabalhos acadêmicos a todo vapor. No Insper, Menezes Filho atualmente é o coordenador da Cátedra Ruth Cardoso e atua como pesquisador do Centro de Gestão e Políticas Públicas (CGPP). Ele ainda leciona na Faculdade de Economia e Administração da USP. Para além da carreira acadêmica, o professor se dedica a falar com o público em geral, traduzindo as questões econômicas para uma linguagem mais simples em palestras e textos de jornais – escreve semanalmente para o jornal Valor Econômico.

faculdades crise
É hora de pensar em novas carreiras, adaptadas ao novo mercado de trabalho (foto: divulgação Insper)

Em entrevista à plataforma Ensino Superior, ele reconhece que o setor do ensino superior vai passar por um momento de turbulência, sem data certa para terminar. Mas Menezes Filho lembra o quanto um diploma ainda traz valor para o jovem brasileiro – e garante que isso não vai mudar. Defende que é hora de as instituições diversificarem suas ofertas para agregar mais valor ao serviço que entregam. Diz ainda que a pandemia não veio inverter a lógica atual do mercado, mas sim acelerar alguns processos e tendências que já estavam em curso.

A pandemia trouxe uma crise para a economia do Brasil. Temos perspectiva de quanto vai durar?

É difícil dar uma previsão. Depende do comportamento do vírus, de como vai ficar o contágio. Se permanecer com mortes em um patamar alto, as pessoas vão ficar reticentes de voltar à vida normal, de sair para as ruas, de voltar a consumir, fazer a roda da economia girar. Nesse cenário, a economia ainda vai demorar para reagir. Com a reabertura, tendemos a uma melhora relativa, mas só se as pessoas se sentirem com segurança. Se o número de casos crescer, se a maioria da população preferir ficar em casa, mesmo com a reabertura, a economia vai demorar a se recuperar.

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E mesmo se recuperar para o patamar anterior não é um cenário animador…

Sim, é importante ressaltar que a situação já não era muito boa. Não estávamos vivendo um momento de crescimento vigoroso que foi enfraquecido repentinamente pela pandemia. Em janeiro, fevereiro e março tínhamos o desemprego elevado, o crescimento projetado do PIB reduzido. Estávamos num processo de recuperação de uma crise cíclica, mas de forma bem tímida.

Quais as classes sociais mais duramente atingidas?

Quem sofre são os mais pobres, os que estavam trabalhando por conta própria, os informais. Como todo mundo saiu das ruas, o dono de um pequeno bar, o pipoqueiro, os ambulantes são as pessoas que estão afastadas do trabalho – e da renda. Os trabalhadores menos especializados são os que mais estão perdendo emprego. Portanto, a crise chega mais forte para as pessoas mais pobres, para os menos educados, os negros e as mulheres. Muitos só estão conseguindo um padrão mínimo de vida, de alimentação, graças à ajuda emergencial do governo.

Alguns setores foram gravemente atingidos, como o turismo. Outros, poupados, como os supermercados. As faculdades particulares estão em qual das pontas?

Não estão entre os mais atingidos, porque puderam manter as aulas, ainda que apenas online.

Obviamente que tem aumentado a inadimplência, que o abandono de alunos deve crescer, sobretudo nas faculdades que têm como público principal estudantes vindos das classes sociais mais baixas, dos que estão na primeira geração da família em um curso superior.

Mas não é tão grave quanto para negócios como o dos restaurantes, que foram proibidos de abrir, tiveram de parar quase totalmente. As faculdades puderam atender a distância, continuar a oferecer aulas, embora de outra forma. 

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O alcance do ensino superior vai cair no país?

O número de estudantes no ensino superior tende a se estabilizar. Houve um crescimento nos últimos 20 anos por vários motivos, da desregulamentação do setor privado, ao aumento no número de jovens no país. Nos anos 2000 a economia também cresceu vigorosamente. Tudo isso, em conjunto, fez com que aumentasse o número de matrículas. Mas essa tendência já estava diminuindo mesmo antes da pandemia. As conclusões do ensino médio estão se estabilizando. Passamos por uma transição demográfica: em pouco tempo teremos diminuição do número de jovens na sociedade. Juntamos a isso uma crise econômica contínua desde 2014. A economia atual não dá sinais de que vai voltar a crescer de forma sustentável, como já não estava crescendo nos últimos anos.

Este momento é mais difícil para uma faculdade pequena?

A estabilização no número de estudantes vai obrigar as faculdades a se ajustarem. Acredito que vamos ver mais movimentos de fusões, como já estávamos vendo acontecer.

A faculdade menor está mais sujeita a ser afetada na crise atual – especialmente se seu público são alunos de baixa renda, que na fase de crise são os mais afetados. Faculdades maiores, que atuam em vários segmentos, oferecem carreiras em áreas diversas, conseguem se sustentar melhor.

Para ler a entrevista completa com o professor e pesquisador do Insper, assine a Ensino Superior:

Assinatura anual https://pag.ae/7W6uQq7YG
Assinatura bianual https://pag.ae/7W6uQUEM1

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